Fonte: Folha de S. Paulo
Sérgio Mena Barreto
EM UMA época marcada pelos avanços tecnológicos e
pelo pleno acesso à informação, a Anvisa põe o
Brasil na contramão do mundo ao tentar impor a
resolução 44/09, que proibiria a venda de produtos
de conveniência e prestação de serviços nas
farmácias, além de retirar os medicamentos isentos
de prescrição médica do alcance do consumidor.
A resolução apresenta um ponto ainda mais complexo:
em muitos municípios, a farmácia funciona como
correspondente bancário, prestando um serviço de
grande importância à população que carece de bancos
públicos ou privados. Cerca de 15 mil
estabelecimentos prestam serviços como o recebimento
de contas e entrega dos benefícios da Previdência
Social.
Soa estranho a agência colocar os remédios na
categoria de bens de consumo e as drogarias na de
centro de compras. Segundo a Anvisa, ao comprar um
produto de conveniência na farmácia, o consumidor
seria influenciado a comprar remédios.
Restringir o acesso aos medicamentos isentos de
prescrição médica e proibir a venda de alguns
produtos na drogaria significa deixar o consumidor
refém da falta de opção.
A concorrência que abre um leque de ofertas
desapareceria, dando lugar ao monopólio de algumas
marcas e acarretando preços mais altos que os
atuais. Essa decisão é um caminho inverso do de
mercados desenvolvidos, em que a farmácia tem
incluído não medicamentos com uma série de
facilidades para o consumidor.
Vale lembrar também que a norma da Anvisa está na
contramão do que pensa a população. Para os
brasileiros, é clara a diferença entre medicamentos
e não medicamentos.
Em pesquisa divulgada pelo Ibope em novembro de
2009, 73% dos entrevistados afirmaram ser contra a
proibição da venda de produtos de conveniência e
serviços nas farmácias. O levantamento ouviu 1.302
pessoas de seis capitais. A margem de erro foi de
3%. Os cidadãos que vivem no Brasil querem, sim, uma
farmácia como a que se vê em muitos países, como EUA
e Inglaterra e até nos nossos vizinhos Argentina e
Chile.
Colocar os remédios isentos de prescrição para trás
do balcão segue a contramão do que acontece no
mundo. Medicamentos dessa categoria têm por objetivo
resolver pequenos males que não necessitam de
atenção médica por sua própria natureza, mas também
têm o papel de educar o consumidor, reduzindo
impacto sobre os serviços públicos de saúde.
A decisão brasileira nada mais é que uma nova forma
de censurar a população, como se as pessoas não
soubessem comprar. A meu ver, é a verdadeira
institucionalização da "empurroterapia", uma vez que
se transfere para um funcionário da farmácia a
decisão de compra.
O Chile é um exemplo real dos problemas dessa
iniciativa. Depois de toda a população ficar refém
dos medicamentos disponíveis só atrás do balcão, do
aumento da "empurroterapia" e da escalada
desenfreada de preços, o governo obrigou as
farmácias a colocar os medicamentos sem receita
novamente fora dos balcões, com livre alcance do
consumidor.
Por fim, temos a questão legal propriamente dita. A
Anvisa nunca teve competência para legislar. A
agência é um órgão executivo com a função de
fiscalizar, e atuação sempre infralegal. Somente uma
outra lei poderia regular o que deve ou não ser
vendido nas farmácias. No Brasil já existem 20 leis
estaduais ou municipais que permitem a venda de
produtos de conveniência em drogarias.
Não é um alimento ou outro tipo de produto que vai
prejudicar o consumidor, mas a venda de medicamentos
com tarja vermelha sem receituário médico, fruto
direto da falta de acesso ao médico que assola nosso
país, que ainda conta com 1.600 municípios sem
nenhum hospital público e mais de 400 cidades sem
médico em nenhum dia do ano.
A resolução 44/09 tem alguns pontos positivos. É um
facilitador do processo de fiscalização, além de
definir algumas regras sobre aplicação de
medicamentos nas farmácias e restrição de
medicamentos de tarja preta.
Embora haja aspectos favoráveis, os de âmbito
negativo se sobressaem.
Medidas como essa da Anvisa servem de placebo,
passando por cima da lei e do respeito ao
consumidor.
SÉRGIO MENA BARRETO, 41, administrador de empresas,
é presidente-executivo da Abrafarma (Associação
Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias).