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Fonte: Guia da Farmácia Indústria e varejo do canal farma não temem descontrole inflacionário e mantêm decisão de investimentos programados
Por Marcelo de Valécio
A elevação de preços se dá quando a procura pelo produto aumenta. É a velha e conhecida lei da oferta e da procura. Quando a procura aumenta, os produtos tendem a ficar mais raros se a oferta não for suficiente para acompanhar a demanda. Isso faz com que os preços praticados se elevem, gerando inflação, como no caso do valor das commodities, que aumentou pela alta demanda global nos últimos anos, acima de qualquer expectativa, a qual não foi acompanhada por um crescimento equivalente da oferta. Em alguns casos, o aumento é provocado por outros fatores, como a especulação que vem ocorrendo com os preços do petróleo.
O Brasil não poderia ficar descolado do cenário internacional conturbado, porém vem conseguindo administrar o crescimento da inflação e não dá para negar os sinais da economia nacional, que foram positivos neste ano. Houve aumento da oferta de empregos e elevação da renda do consumidor, fatores que incrementam o comércio e toda a atividade econômica. Determinados segmentos mostram crescimento expressivo, como de material de construção, automobilístico, de móveis e vestuário. Tais grupos geram novas oportunidades de emprego, reforçando o círculo.
De sua parte, a indústria farmacêutica mantém o otimismo e não há perspectiva de redução no ritmo dos investimentos. Essa é a avaliação da Federação Brasileira da Indústria Farmacêutica (Febrafarma). Para a entidade, o planejamento dos laboratórios não foi afetado pela inflação, já que as decisões de investimento são sempre de médio e longo prazo. “A indústria farmacêutica pensa sempre em um horizonte muito mais largo; portanto, não é um período de inflação alta que vai afetar ou modificar essa estratégia”, afirma a Febrafarma.
Em 2008 a indústria farmacêutica instalada no Brasil deve investir R$ 1,72 milhão, 14,8% a mais do que no ano passado. O maior crescimento registrado em relação a 2007 está na área de pesquisa e desenvolvimento de novos produtos (30%), para a qual foram destinados R$ 505,2 milhões. Os planos de investimentos dos laboratórios contemplam ainda R$ 893,5 milhões, para o aumento e a modernização da capacidade produtiva, e R$ 225,4 milhões, para o lançamento de produtos.
Considerando desde meados dos anos 1990, os investimentos da indústria farmacêutica no País somam cerca de R$ 10 bilhões. “As vendas do setor neste ano deverão ficar no mesmo patamar das registradas em 2007”, prevê a entidade, lembrando que o comportamento da inflação não afeta diretamente seus negócios por causa do controle de preços que vigora no mercado de medicamentos, o qual impede o repasse de eventuais aumentos de custos ao preço dos produtos.
Para o vice-presidente da Eurofarma, Nelson Mussoline, um reajuste de preços na área de medicamentos está fora de cogitação. “Os valores são controlados pelo governo e a próxima data para ajuste é abril de 2009. O que a indústria está fazendo é revendo seus custos e negociando com fornecedores de insumos, pois estes não têm preços controlados. Acreditamos que a negociação seja o caminho”, avalia Mussoline, que revela também uma particularidade do setor.
“A indústria farmacêutica é a primeira a sentir o impacto da crise e a última a se recuperar. Em momentos de inflação alta, o consumidor corta o que for possível. Compra apenas o essencial. Por ser mais sensível, a indústria se mantém alerta, preparada para uma crise, e isso cria defesas”, diz o executivo.
Mas Mussoline descarta retenção de investimentos. “O setor está em ascensão e os aportes não devem cessar. Na Eurofarma acreditamos que essa fase vai passar, por isso mantemos nosso plano de investimentos. Vamos inaugurar em breve uma fábrica em Itapevi (SP), e os demais projetos estão em marcha.”
Quem também não vê a indústria totalmente contaminada pela inflação, pisando no freio dos investimentos, é o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (Abihpec), João Carlos Basílio da Silva. “A economia não está indexada como antes e o comportamento da inflação é setorial.
Um setor pode contaminar o outro, claro, mas não de maneira acentuada. A área de higiene e beleza registrou inflação de 3,5% nos 12 meses anteriores a junho.
Além disso, a sociedade está mais evoluída e equilibrada em relação à inflação, todos sabem que precisam contribuir”, considera. Em se tratando de investimentos, o setor está a todo vapor. “Novos projetos estão em ritmo acelerado.
Uma indústria importante, por exemplo, está investindo US$ 1 bilhão em uma nova fábrica, que será inaugurada até o final do ano”, afirma o executivo. “O setor está otimista porque enxerga a longo prazo, e não há grandes dificuldades previstas para esse cenário.”
Repassar ou não aumentos, de maneira integral ou parcial, vai depender da capacidade de administração de cada empresa, do conhecimento do mercado e das condições da concorrência e do poder de negociação que cada empresa tem com seus fornecedores. “O mais importante a fazer agora é reduzir custos e buscar boas negociações com fornecedores. Existem ainda certos instrumentos de gestão que podem ajudar a driblar margens menores.”
Fernanda Della Rosa, gerente do departamento de economia da Fecomercio- SP, lembra que as farmácias mudaram muito o perfil da oferta de produtos e passaram a trabalhar não só com medicamentos, cujos preços são controlados, mas também com outros produtos, o que lhes possibilitou diversificar o mix de oferta.
Outro ponto importante tem sido a venda por cartão de crédito com pagamento do valor à vista parcelado, que facilita a vida do consumidor. “Estratégias de descontos e de promoções de fidelização também têm surtido bons efeitos, incrementando as vendas.”
“os valores são controlados pelo governo e a próxima data para ajuste é abril de 2009. o que a indústria está fazendo é revendo seus custos e negociando com fornecedores de insumos, pois estes não têm preços controlados. acreditamos que a negociação seja o caminho” Nelson Mussoline, vice-presidente da Eurofarma Para Sérgio Mena Barreto, presidente da Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), a inflação não afetou o varejo farmacêutico de forma importante. “Além de os preços serem controlados, há forte concorrência no setor. As empresas preferem negociar com a indústria a repassar aumentos e perder clientes”, afirma Barreto. O executivo faz ressalva em relação ao alarmismo inflacionário. “É preciso cuidado, houve aumento de preços, mas não estamos em um ambiente inflacionário generalizado, que ocorre quando se busca um determinado produto e ele não é encontrado. Isso não está acontecendo. Relatórios da federação das indústrias não indicam uso total da capacidade instalada. O aumento dos preços no País foi mais influenciado por fatores externos. Não há explosão de consumo interno nem desabastecimento”, sustenta. Na opinião do executivo, o setor de farmácias está otimista e os investimentos previstos estão assegurados. Prudente, o diretor de marketing da Rede Drogão, Nelson de Paula, revela que a empresa não pensa em congelar investimentos, mas considera que o momento exige atenção. “A palavra correta é racionalizar. Sempre é possível conseguir indicadores melhores. Os ajustes necessários foram sendo planejados gradativamente. Com determinação e foco nas metas estratégicas, vamos manter os investimentos, mas com os pés fincados no chão”, afirma. |



