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Economistas veem ociosidade mais prolongada

13 de outubro de 2021
Fonte: Jornal Valor Econômico - SP / Foto : Silvia Costanti

Com juros em alta e impacto sobre atividade, hiato do produto não deve fechar antes de 2023.

Por Anaïs Fernandes — De São Paulo

Apesar das projeções elevadas para os índices de preços no Brasil, o entendimento de que ainda se tratam mais de pressões pelo lado da oferta do que da demanda e de que o Banco Central vai impor um freio à atividade para tentar trazer a inflação de 2022 para a meta fez analistas postergar a perspectiva de fechamento do hiato do produto, uma importante medida de ociosidade da economia.

Em questionário do BC a economistas antes da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) de setembro, a mediana das respostas indicava um hiato de -2% ao fim deste ano, ante -1,8% no questionário de junho. Para 2022, a projeção de setembro está em -1,5%. O hiato do produto refere-se à diferença entre o PIB efetivo e o potencial - aquele que seria alcançado usando de forma plena todos os fatores de produção, como mão de obra e capital.

Se o PIB potencial está muito acima do efetivo, nem todos os recursos são empregados de maneira eficiente, e o hiato é negativo. Quando essa ociosidade dos fatores da economia é ocupada, diz-se que o hiato fechou.

Em junho, a maioria dos respondentes do questionário pré-Copom (37 de 73) esperava fechamento do hiato em 2022, sendo que o terceiro trimestre concentrava as apostas (13). Agora, 30 de 68 casas esperam o fechamento em 2023 - e 13 delas somente no último trimestre -, enquanto 17 passaram a ver essa possibilidade apenas em 2024, contra quatro estimativas similares em junho.

O hiato do produto é uma variável não observável, ou seja, economistas partem de outros indicadores existentes para chegar a ela e não há um método único de cálculo. Quando, em julho, escreveram relatório sobre as diversas metodologias, os economistas do Bradesco Ederson Schumanski, Thiago Angelis e Myriã Bast estimavam o fechamento do hiato entre o fim de 2022 e o início de 2023, com maior chance de ser no ano que vem. Naquele momento, porém, a indicação do BC era de normalização da taxa básica de juros para patamar neutro (aquele que não estimula nem contrai a economia).

“De lá para cá, o BC virou a mão e falou que vai levar para o terreno contracionista. No fundo, o que ele está dizendo é que vai ter que colocar um freio na atividade. Quando ele leva o juro para 9% entre o fim deste ano e início do próximo, ele joga a atividade do segundo semestre de 2022 para baixo e o hiato começa a abrir devagar de novo”, diz Schumanski. Em dado momento do ano, lembra Angelis, economistas anteciparam o fechamento do hiato, em meio à onda de melhora das projeções para o PIB de 2021. “Agora, com a ideia de Selic contracionista, volta para aquele patamar, talvez, de 2023.”

O último cenário do Bradesco prevê uma Selic encerrando 2021 em 8,25%, com pico entre 8,75% e 9,25% e desacelerando para 8,5% no fim de 2022. “Se estivermos certos e, no último trimestre do ano que vem, a Selic começar a cair de novo, aí o hiato vai parar de abrir e começar a fechar. É difícil precisar quando ele vai fechar, depende do ciclo monetário, mas, pelas nossas simulações, deve ser lá perto de 2023 para 2024”, diz Schumanski.

Para calcular o hiato, o Bradesco combina filtros “mais fechados”, que captam melhor a dinâmica de curto prazo de aceleração da inflação, e outros “mais abertos”, que trazem indicações de longo prazo. “Hoje, no segundo para o terceiro trimestre, vemos um hiato perto de -2,5%”, diz Schumanski. A visão ainda é de uma ociosidade grande no mercado de trabalho, mesmo com os sinais recentes de recomposição, aponta Bast.

No setor de bens, o hiato parece mais fechado, mas há ressalvas. “Não dá para assumir, na nossa opinião, que esse hiato vá permanecer fechado por muito mais tempo, porque imperam alguns elementos que certamente não são permanentes, como gargalos de oferta mundial e um deslocamento para o consumo de bens.”

Além da “mão mais pesada” do BC, Alexandre Teixeira, economista da MCM Consultores, observa que muitos fatores positivos para a revisão de crescimento logo após a divulgação do PIB do primeiro trimestre mudaram.

A questão política e institucional, diz, está muito conturbada e a perspectiva de uma disputa polarizada em 2022 consolidou-se, aumentando incertezas e erodindo a confiança. Problemas fiscais também voltaram a assombrar o mercado e os preços dos ativos se deterioram, apertando as condições financeiras. Além disso, embora não seja o principal, houve certa frustração com o PIB do segundo trimestre e o quadro externo, se não é negativo, também não está tão favorável quanto antes.

A MCM chegou a esperar que o hiato do produto fechasse na passagem de 2022 para o ano seguinte, mas agora vê essa possibilidade lá para o fim de 2023, quando ele estaria em -0,8%, o que, segundo Teixeira, “é um número suficientemente pequeno para achar que a economia já está em equilíbrio”. Até lá, no entanto, o hiato ainda abrirá mais.

“Temos uma projeção de crescimento mais forte no quarto trimestre de 2021, tanto que o hiato é de -3,8% em setembro e cai para -2,8% em dezembro. Depois, há uma acomodação da atividade”, explica o economista. Com isso, o hiato ainda pode ir a -3,2% no primeiro trimestre de 2022, projeta, mantendo-se em -3,1% no segundo e no terceiro trimestre e retornando a -2,8% no fim de 2022.

Ainda que diferentes, as estimativas de hiato precisam guardar coerência com certas variáveis observáveis, por isso “causa muito estranhamento” que o BC veja um hiato de 1,7% no terceiro trimestre deste ano, como aponta no Relatório de Inflação (RI) de setembro, enquanto a taxa de desemprego do país roda em torno de 14%, afirma Bráulio Borges, economista-sênior da LCA Consultores e pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia (FGV Ibre).

“Falta muito pouco, na visão do BC, para a economia brasileira atingir o pleno emprego”, diz ele, que estima um “desemprego de equilíbrio” para o Brasil, atualmente, entre 9% e 10%. “Dois ou três trimestres de PIB crescendo 0,5% por trimestre, ou seja, um ritmo anualizado de uns 2%, e a economia brasileira já atingiria o pleno emprego, o que, para mim, contrasta muito com a taxa de desemprego de hoje, muito acima dos 11,5% do pré-pandemia.” Borges estima que o hiato do produto está em torno de -5%, podendo ir a -3,5% no fim de 2022.

“Ainda seria bem negativo”, afirma. Segundo o RI de setembro, o BC projeta -1,2% ao fim de 2022, sendo que, no relatório de junho, a estimativa era que o hiato poderia se fechar “ao longo de 2022”. “O próprio BC está reconhecendo que, ao atuar para trazer a inflação para a meta do ano que vem de 3,5%, vai ter de postergar, na sua projeção, esse hiato para 2023”, diz Borges. Nos seus cálculos, o hiato só fecharia na virada de 2024 para 2025, coincidindo com o período para o qual a LCA vê uma taxa de desemprego ao redor de 10%.

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