O que significa a chegada da vacina para a economia e o mercado? 
 

Fonte: Jornal Valor Econômico – SP

 

Para economistas, é possível esperar uma aceleração da retomada econômica neste ano, mas sem efeito para as perspectivas de médio prazo 

Por Roberta Costa — De São Paulo

 

A taxa de eficácia de 90% no ensaio da vacina para covid-19 da Pfizer e BioNtech trouxe otimismo e proporcionou um rali nos ativos de risco, “superando as expectativas mais otimistas do mercado”, segundo analistas do Citi Healthcare. Eles esperam a aprovação da Agência de Remédios e Alimentos (FDA, na sigla em inglês) dos Estados Unidos ainda este mês, mesmo com questões de logística a serem resolvidas e veem, portanto, “que um grande avanço” foi alcançado. 

 

Mas o que esta notícia significa para a economia global e para os mercados, de fato? A primeira óbvia leitura é que os setores mais abalados pela crise da pandemia tendem a se recuperar e isso já pôde ser visto na segunda-feira com a rotação das carteiras de ações de setores considerados defensivos neste ambiente, como o de tecnologia, para os cíclicos, mais relacionados ao crescimento, como lazer, transporte e financeiro - este último altamente correlacionado com a alta dos yields dos Treasuries. 

 

Os preços do petróleo e de moedas arriscadas também subiram bastante. A disparada de preços impressiona porque veio na sequência de uma semana muito forte, após as eleições nos EUA, dada a expectativa da vitória do democrata Joe Biden com um Congresso dividido, o que elimina, na visão dos investidores, os riscos de maior regulamentação e impostos. Os preços das ações nos EUA estão agora cerca de 10% mais altos do que no início da semana passada.

 

Olhando a mediana das opiniões de estrategistas, apesar do ganho forte, há espaço de recuperação para as ações “atrasadas” neste ciclo. No câmbio, o mesmo se pode dizer de muitas moedas emergentes, que também estão longe de seus níveis prépandêmicos e podem se recuperar ainda mais. Já na renda fixa, há um fator importante de contenção da disparada dos yields, a despeito de notícias muito positivas, que é a posição compradora do Federal Reserve (Fed) nos mercados - algo que não deve mudar tão cedo.

 

A reação de curto prazo do mercado é compreensível, mas a continuidade do bom humor e a reavaliação dos cenários macroeconômicos dependem de alguns fatores, estes relacionados à vacina e à postura de governos e BCs. Um ponto destacado por consultorias como a Capital Economics e a Oxford Economics é que uma vacina aceleraria a recuperação econômica neste ano, mas não mudaria as perspectivas de médio prazo. “A experiência após o fim do primeiro bloqueio sugere que, se uma vacina fosse lançada nos próximos meses, o consumo poderia voltar ao normal rapidamente, de modo que a atividade pode se recuperar no segundo trimestre de 2021”, destaca a Capital. A Oxford vai na mesma linha e cita prazo equivalente para se notar benefícios na economia. 

 

A consultoria ressalta “as complexidades de distribuir um programa de vacinação abrangente, além da necessidade contínua de apoio político” para que isso aconteça. O fato é que as cicatrizes da pandemia não sumirão com a notícia do avanço dos testes, tampouco nos primeiros lotes de imunização. 

 

Os riscos negativos permanecem e os formuladores de políticas não podem se tornar complacentes. Isso vale para os programas de apoio fiscal e para as posturas acomodatícias dos bancos centrais. “A economia hoje ainda está em posição precária, com grande parte do mundo vendo um número alto e crescente de casos de covid. A recuperação exigirá apoio contínuo e resistência ao desejo de apertar prematuramente as políticas”, avalia a Oxford. O UBS afirma que deve manter, no geral, uma postura pró-risco. 

 

“Pensamos que o melhor curso de ação é operar sob o pressuposto de que a eleição nos EUA acabou e esperar que o foco do mercado mude para motores de crescimento econômico de médio prazo.” Se há riscos, por que, então, os mercados viveram um rali na segunda-feira? “Achamos que as novidades da vacina eliminaram algumas das principais fontes de risco de queda adicional. Dado que o preço de mercado é a média ponderada de resultados futuros, simplesmente eliminar o risco de queda pode aumentar os preços”, diz a Oxford. 

 

Outro tema importante é o tamanho do pacote que o Congresso dos EUA deve aprovar. A expectativa caiu acentuadamente para algo em torno de US$ 1 trilhão, ou 5% do PIB, muito menor que a aposta anterior de US$ 2 trilhões. 

 

Isso porque um plano mais modesto e de curto prazo daria respaldo para a economia o suficiente para se avançar nas discussões em torno de um plano de longo prazo, mitigando rapidamente alguns efeitos mais urgentes e deletérios à atividade. Este parece ser um ponto comum entre bancos e consultorias nos últimos dias justamente porque há logo à frente a transição do governo Trump para o de Biden, o que não deve acontecer sem emoção. Mas ninguém põe na conta (ainda) um caos duradouro.

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