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A nova batalha da indústria farmacêutica é na Dark Web

30 de janeiro de 2026
Fonte: Portal Revista da Farmácia – SP

A revolução digital chegou aos laboratórios e fábricas do setor farmacêutico brasileiro. Pesquisas se aceleraram, ensaios clínicos ganharam precisão e a distribuição de medicamentos se tornou mais eficiente. Mas essa mesma conexão que nos move para frente abriu uma perigosa porta dos fundos. Hoje, um inimigo invisível está de olho em algo que vale mais do que dinheiro: nossos dados mais estratégicos, que agora são negociados como mercadoria nos cantos mais sombrios da internet.

 

Conhecemos bem o “crime do jaleco”, o uso indevido de dados de pacientes. No entanto, dentro da indústria, o alvo é diferente e igualmente sensível. Imagine a fórmula de um novo medicamento, anos de pesquisa, detalhes de produção ou o mapa logístico de uma distribuição crítica. Esses segredos não são apenas dados; são a própria competitividade, a segurança e a inovação de uma empresa. Quando vazam, o prejuízo vai muito além do digital.

 

Os números globais são um alerta. O relatório da IBM de 2025 mostra que cada vazamento de dados no setor farmacêutico custa, em média, US$ 4,61 milhões. Esse valor impressionante reflete o caos operacional, as multas e, principalmente, a erosão da confiança — um ativo que leva anos para ser construído e segundos para ser perdido.

 

E os ataques não dão trégua. O ransomware, que sequestra sistemas e cobra resgate, continua a crescer, especialmente em setores que guardam informações valiosas. A indústria farmacêutica está, infelizmente, na linha de frente. O pior é que o impacto é palpável: se dados logísticos de medicamentos controlados vazam, o risco pode se tornar físico, com desvios de carga e até desabastecimento, afetando diretamente quem precisa de tratamento.

 

A vulnerabilidade, muitas vezes, está onde menos se vê: na cadeia de parceiros. Terceirizados de TI e logística compartilham sistemas, e credenciais de acesso vazadas — há empresas com mais de mil expostas na web — são a chave que os criminosos usam para invadir. É como trancar a porta da frente e deixar a dos fundos escancarada.

 

Um caso emblemático e público que ilustra a gravidade do problema foi o ataque de ransomware NotPetya à Merck & Co., em 2017. O ataque paralisou a infraestrutura global da farmacêutica, interrompeu pesquisas, fabricação e distribuição e causou prejuízos estimados em bilhões de dólares. Mais recentemente, em 2024, um novo ataque a uma grande empresa de pesquisa com operações no Brasil — cujo nome foi mantido em sigilo pela investigação — forçou novamente a migração para processos manuais. Esses episódios são lembretes contundentes de como a operação depende de um ambiente digital seguro e de como a ameaça é persistente e está em constante evolução.

 

Por trás de toda tecnologia, existe uma relação de confiança. Pacientes confiam em seus medicamentos, médicos em seus fornecedores e a indústria nos reguladores. Quando um vazamento ocorre, esse pacto é quebrado, e reconstruí-lo é uma jornada longa e dolorosa.

 

A solução, portanto, não está apenas em firewalls ou criptografia. Está nas pessoas. Uma governança clara, treinamento constante e o princípio de conceder acesso apenas ao necessário são a base de tudo. Tecnologia avançada sem uma cultura de segurança é como um carro esportivo sem freios.

 

E quando, apesar de tudo, o incidente acontece, a forma de agir define o futuro. Transparência, comunicação ágil com autoridades e parceiros e uma postura responsável são o antídoto que mitiga os danos e demonstra a maturidade de uma instituição.

 

Proteger dados na indústria farmacêutica, no fim das contas, é muito mais do que segurança da informação. É proteger vidas que dependem de medicamentos, garantir que a inovação chegue com integridade a quem precisa e honrar a missão ética que guia o setor. Em um mundo cada vez mais conectado, tratar a cibersegurança com o mesmo rigor de um protocolo de pesquisa não é mais uma opção — é uma obrigação moral e estratégica.

 

Denis Furtado é engenheiro de sistemas e diretor da Smart Solutions, distribuidora brasileira de soluções antifraude e de cibersegurança. Por meio da Revista da Farmácia, empresários e profissionais se mantêm informados sobre as mais eficientes técnicas de planejamento, gestão, vendas, boas práticas farmacêuticas, entre outros temas.

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