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A revolução da inteligência artificial: movimentos que eu vi no Alibaba na China

09 de janeiro de 2026
Fonte: Jornal Diário do Comércio - MG

André Giffoni

Diretor de Estratégia Digital e Cliente da Drogaria Araujo, entusiasta da evolução da humanidade, dos negócios e das pessoas.

 

Eu cresci ouvindo que a China era um “bicho-papão”. Talvez você também. Mas quando estive lá pela primeira vez, em 2019, três meses antes do mundo entrar em lockdown, algo mudou dentro de mim. Encontrei um país com 17 cidades acima de 10 milhões de habitantes, todas tão ou mais impressionantes que Nova York. Vi uma nação digitalizada, com vendas on-line superando 30% do varejo. A viagem mexeu comigo, algo grande estava chegando, e chegou: no Brasil, as vendas digitais já representam 20%.

 

Voltei agora, em 2025, para participar do Netpreneur Program, da AGI – Alibaba Global Initiatives. Dessa vez, sem grupo de executivos, sem guia, sem “proteções”. Em Hangzhou, vivi a China real: estradas perfeitas, prédios ainda maiores, flores e jardins sob cada viaduto, e principalmente, a revolução de Inteligência Artificial (IA) em pleno movimento, como nunca vi antes.

 

A velocidade com que a IA está avançando por lá fará a revolução da internet parecer que demorou séculos. Toda empresa, governo ou instituição deveria mirar o mesmo objetivo: ser AI-empowered. Quem dominar a IA, dominará a próxima fonte de poder do mundo. Este texto não é uma crítica ao Brasil nem uma devoção à China, é apenas um convite: podemos muito mais!

 

A IA é silenciosa. As grandes revoluções foram visíveis: agrícola, elétrica, internet, mas esta nova revolução é invisível e poderosa. Está por trás de tudo, escalando a inteligência humana sem ser vista. Hangzhou tem o City Brain, que não é um cérebro gigante, mas milhares de agentes de IA operando em tempo real. Um exemplo simples: olhe para cima e no semáforo tem um agente que analisa o trânsito e cria um corredor verde para ambulâncias ou bloqueia cruzamentos antes que sejam fechados.

 

É como escalar milhares de policiais ao mesmo tempo. O pragmatismo chinês está em aplicar soluções de IA nos problemas do dia a dia: encontrar o médico mais perto com atendimento mais rápido, avaliar a qualidade da água ou identificar vazamentos pela cidade, garantir segurança das pessoas alocando a ronda policial no local e momento certo. Onde tiver inteligência podemos escalar em IA. Comece respondendo três perguntas: qual problema quero resolver, qual impacto para o cliente e para o negócio, e o que devo priorizar primeiro.

 

Se você ainda não entendeu o que é um agente de IA, atenção! GPT e Gemini são portas de entrada, modelos generalistas. O Alibaba seguiu outro caminho, a especialização. Criou agentes focados em problemas específicos, com missão, dados e modelo próprio. São inúmeros agentes, para escalar em IA é preciso fazer cada um deles aproveitar o conhecimento do outro. O segredo está em dados organizados, automação e um protocolo de comunicação. O mais usado hoje é o MCP (Model Context Protocol), que permite que um agente converse com outro.

Os agentes precisam ser orquestrados. Um agente recebe inputs, processa com IA e devolve ações reais.

 

A automação de todo processo é feita em plataformas como N8N ou Amazon Bedrock, tudo se conecta e a magia acontece. Algumas soluções de automação são simples, e podem ser pilotadas pelos próprios times de negócio. Este é um ponto importante para escolha de soluções e arquitetura de TI a ser utilizado para viabilizar a escalada de IA. Dentro do Alibaba, vi um agente que monitorava tendências e sugeria novos produtos com design, imagem e especificações prontas. Ele detectou o boom do copo Stanley, sugeriu novas cores e categorias. Só faltou mandar produzir (se é que ainda falta).

 

Nesta nova onda tecnológica, você é literalmente a interface. Com os modelos de linguagem estamos conectados à máquina sem precisar programar, viramos o hardware. A interface pode ser voz, texto, gesto ou face. Na China, paguei contas, entrei no hotel e até no avião com o rosto. Senti o on-line e offline como uma coisa só. No Museu do Futuro de Hangzhou, vi óculos inteligentes (de formatos comuns, de grau ou sol) que transformarão a forma de comprar. Imagine olhar para um produto numa loja física e, pelas lentes, ver preços online, cupons, comparações e pagamento imediato.

 

O Quark é os óculos de IA do Alibaba, e apresenta o conceito do Intentional Commerce, o processo de compra muda. Ao invés de buscar, filtrar, escolher e clicar, você apenas expressa uma intenção: “quero a compra básica da semana”. O agente entende, sugere opções e você paga. É como conversar com o melhor vendedor que já te atendeu, escalado por IA.

 

A loja terá que chegar até o cliente. Em elevadores de shoppings que fui, vi dois clientes e seis entregadores. Patinetes, motos, minicarros, bicicletas, overboards, e em breve, robôs autônomos. Quem entrega rápido vence. Para isso, é preciso inteligência para separar, embalar, escolher modal, roteirizar e resolver a entrega e a não entrega. E sim, vai ter robô.

 

Os robôs estarão entre nós no dia a dia. Em Xangai, um robô me vendeu água, dentro da loja que ele cuida sozinho. No hotel Flyzoo, robôs serviram meu jantar. Eles não são mais máquinas repetitivas, agora aprendem e se adaptam, ganharam nossos cérebros com a IA. A sensação de andar entre eles é incrível, eles passam pertinho da gente, estão fluidos, livres, leves e soltos e vão se tornar parte do cotidiano.

 

O novo varejo inteligente: IA, automação e robôs. A Luckin Coffee é uma rede de cafeterias com 20 mil lojas. Minha impressão é ver uma empresa AI Empowered, operando seus processos em escala com IA. O resultado é impressionante, por exemplo, em novos produtos lançou 119 drinks em 2024, com ciclo de três semanas e taxa de acerto acima de 60%. Não é humano contra máquina, é humano com o melhor da máquina.

 

O marketing e a forma de se conectar com o cliente mudaram. O número apresentado pelo Alibaba é que 95% do investimento já é digital, personalizado, automatizado e ativado em tempo real. Em 2015, era 30%. Os agentes de IA geram campanhas one-to-one em tempo real. Visitei a JoyMedia, uma MCN (Multiple Channel Netwok) que impacta 2 bilhões de pessoas e coordena milhares de criadores de conteúdo: multiconteúdo e multiformato. Eles produzem filmes, lives, séries e posts para marcas que querem estar onde o cliente está. Para mim, este será o formato dos grandes grupos de mídia do futuro.

 

Mas a China sempre surpreende e não para por aí, estes milhares de formatos de conteúdo em tempo real já estão sendo gerados por IA. Bin Du, fundadora da startup MyTwins.ai, desenvolveu um agente que cria o avatar do influenciador, o avatar do produto e cria lives interagindo com os clientes. Faz tudo, e você terá dificuldade de saber se é real ou não. São centenas de conteúdos sendo produzidos e com interação de forma automática. Este agente também está sendo treinado para interagir não só com quem pergunta, mas também com quem está apenas assistindo. Na visão da fundadora, os testes mostram que grande oportunidade está em provocar e despertar interesse nesta parte da audiência: textos inbox, falas adequadas em real time para aguçar o interesse são formas de fazer isto. O valor é SaaS (Software as a Service), ¥ 10 Yuan por hora.

 

E aí entra a cultura. Diferente do cultivo do trigo no ocidente que depende mais do clima e da terra, a cultura do arroz no oriente exige disciplina diária, atenção aos detalhes e trabalho constante. O esforço diário é proporcional ao retorno, e isso ajudou a moldar uma cultura focada, persistente e orientada a resultados. Sucesso vem do esforço, não apenas do talento.

 

Essa mentalidade é real. No China Fashion Technology Innovation Institute, encontrei uma cadeia inteira sendo revolucionada (do algodão ao provador digital de roupas), unida pelo pensamento de crescimento através da tecnologia e melhor eficiência. Na China não há visão de crescimento sem inovação. Na era digital, autonomia com responsabilidade é essencial. Chandee, um dos primeiros colaboradores do Alibaba, disse algo importante: “Se quer inovar, precisa de visão, missão, valores e alinhamento. Comando e controle não permitem isso”. Menos piscina de bolinhas e chopeira. Mais propósito, clareza e execução.

 

Execução é a palavra final desta viagem. No Alibaba, li os valores nas paredes: “Se não agora, quando? Se não sou eu, quem?”; “A melhor performance de hoje é a base de amanhã”; “Confiança torna tudo mais simples”. O Chinês tem visão grandiosa, o planejamento do país é organizado em ciclos de cinco anos, mas tudo depende da execução.

 

E é esse pragmatismo que, para mim, explica por que da janela do meu quarto vi dois prédios com mais de cem andares em Xangai. Detalhes bem executados constroem gigantes, como as flores plantadas nos canteiros das rodovias. São símbolos silenciosos de uma nação que tirou 800 milhões de pessoas da pobreza em 40 anos. O enriquecimento é glorioso, e o futuro está chamando: ele quer aqueles que desejam executar, e nosso país e negócios precisam disso.

 

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