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As canetas emagrecedoras e a perda de massa muscular

23 de fevereiro de 2026
Fonte: Jornal Zero Hora – RS

Medicamentos como liraglutida, semaglutida e tirzepatida reduzem o peso corporal total, mas podem afetar um dos pilares da longevidade saudável.

 

Leandro Minozzo (*)

 

O uso dos novos medicamentos para obesidade, popularmente conhecidos como "canetas emagrecedoras", deixou de ser tendência para se tornar parte do presente da medicina. Mais do que ajudar na perda de peso, esses fármacos representam uma das maiores revoluções recentes no tratamento de doenças crônicas. Evidências científicas mostram benefícios que vão além da obesidade e do diabetes, com impacto positivo em condições como insuficiência cardíaca, apneia do sono, esteatose hepática, osteoartrite de joelhos, proteção da função renal e até melhora de desfechos em pacientes oncológicos. Um dado importante é que, diferentemente de décadas anteriores, pessoas idosas participaram de forma significativa dessas pesquisas.

 

Mas, como costuma acontecer na prática médica, os avanços vêm acompanhados de dilemas. Entre eles, o custo elevado, a necessidade de uso prolongado e, especialmente em pessoas com mais de 60 anos, a preocupação com a perda de massa muscular. Medicamentos como liraglutida, semaglutida e tirzepatida reduzem o peso corporal total, mas também podem levar a uma redução relevante de massa magra - um ponto sensível em um momento da vida em que preservar músculos é um dos pilares da longevidade saudável.

 

Diante disso, surgem perguntas complexas: devemos manter pessoas idosas com obesidade sem acesso a um tratamento eficaz, mesmo quando dieta e exercício não produzem resultados? O que fazer quando há indicação cardiológica para o uso da medicação, mas o paciente já apresenta fraqueza muscular? E se o tratamento, em vez de ajudar, piorar a capacidade funcional?

 

Obesidade sarcopênica

Como médico geriatra e nutrólogo, tendo uma postura tradicionalmente conservadora na prescrição, reconheço tanto os riscos quanto os prejuízos da inércia terapêutica. Mais de 60% dos idosos brasileiros vivem com sobrepeso ou obesidade, e uma parcela significativa apresenta a chamada obesidade sarcopênica - combinação de excesso de gordura com perda de força e massa muscular, condição associada a maior risco cardiovascular, mortalidade e perda de qualidade de vida.

 

Um paradoxo interessante emerge das pesquisas mais recentes: embora os idosos tratados com essas medicações percam massa muscular, muitos apresentam melhora da capacidade funcional. Caminham mais rápido, levantam-se com mais facilidade e relatam melhor qualidade de vida. A explicação provável está na melhora da qualidade do músculo. Parte da perda de massa ocorre pela redução da gordura infiltrada no tecido muscular - a mioesteatose - que prejudica o metabolismo e a função dos músculos. Com menos inflamação e melhor eficiência metabólica, o músculo pode funcionar melhor, mesmo sendo menor em volume.

 

Além disso, a perda de peso reduz sobrecarga articular, inflamação sistêmica, melhora o controle da glicemia, da pressão arterial, do sono e até do humor. Na prática clínica, o excesso de peso costuma ser uma barreira inicial para a adoção de hábitos saudáveis, e sua redução pode abrir caminho para um estilo de vida mais ativo.

 

Isso não significa, porém, que o uso seja simples ou isento de riscos. Em idosos frágeis, com alto risco de quedas, hospitalizações e eventos adversos, qualquer perda muscular pode ser perigosa. Nesses casos, a indicação deve ser extremamente criteriosa ou mesmo evitada. Já em idosos sem fragilidade, o uso pode ser seguro desde que integrado a um plano de cuidado estruturado, com exercício resistido, ingestão adequada de proteínas, progressão lenta de doses e acompanhamento próximo.

 

As canetas não são mágicas. Isoladas, usadas por poucos meses ou sem mudanças no estilo de vida, tendem a frustrar expectativas e aumentar riscos. O desafio está em equilibrar benefícios metabólicos reais com a preservação da funcionalidade e da autonomia - objetivos centrais do envelhecimento saudável.

 

O uso dessas medicações deve crescer, inclusive entre pessoas idosas, como já apontam diretrizes internacionais. Cabe aos profissionais de saúde, pacientes e familiares compreenderem que, na medicina do envelhecimento, não há soluções simples. Há, sim, decisões cuidadosas, individualizadas e baseadas em evidências.

 

Como diria José Saramago: "Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo". Esse talvez seja o melhor resumo para esse novo capítulo da medicina.  (*) Médico geriatra e nutrólogo, professor na Afya Educação Médica.

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