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Canetas emagrecedoras: apreensão dobra no Brasil com contrabando do Paraguai; veja dados da Polícia Federal

06 de julho de 2026
Fonte: Jornal O Globo – RJ

Por Dimitrius Dantas  — Brasília

 

No dia 16 de abril deste ano, após uma perseguição em alta velocidade na rodovia PR-445, perto da cidade de Cambé, no interior do Paraná, a polícia interceptou um veículo com um carregamento clandestino milionário. Entretanto, escondidas entre 880 celulares e 55 notebooks, estavam cerca de 7 mil ampolas de tirzepatida, um dos princípios ativos das canetas emagrecedoras, apreendidas pelos agentes com dois suspeitos. A carga, que também tinha ampolas de anabolizantes, foi avaliada pela Receita Federal em R$ 2 milhões.

 

Os dados são acompanhados, também, por um aumento na notificação de efeitos adversos à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa): em 2023, foram 257 notificações, em 2024, o número subiu para 449 e, em 2025, novamente dobrou, indo para 1.122.

 

A geografia das apreensões aponta para uma rota de entrada bem definida, similar à da apreensão de R$ 2 milhões em Cambé: boa parte das mercadorias saem do Paraguai e entram no Brasil pelo Paraná ou pelo Mato Grosso do Sul, rumo aos centros de consumo em São Paulo e no Rio de Janeiro.

 

Sozinho, o Paraná concentra 37% das ocorrências e mais da metade do volume total apreendido; somado ao Mato Grosso do Sul, o eixo de fronteira com o Paraguai responde por quase metade dos casos e 60% das unidades retidas, padrão que a própria PF associa, em documento, ao contrabando que entra pela tríplice fronteira, em Foz do Iguaçu, e segue por rodovias já usadas pelo tráfico de drogas.

 

Esse fluxo é complementado por transporte aéreo, que permite o deslocamento rápido de cargas menores entre cidades, e por remessas postais internacionais, que ampliam a distribuição via comércio eletrônico. Os criminosos também costumam utilizar técnicas como fracionamento de cargas, ocultação em veículos e uso de “formiguinhas” (transportar a carga por várias pessoas ou em múltiplas viagens com o objetivo de driblar a fiscalização alfandegária).

 

Em abril, a Polícia Federal, com apoio da Anvisa, fez uma operação para reprimir a entrada irregular, a produção clandestina, a falsificação e o comércio ilegal de canetas emagrecedoras. Foram cumpridos 45 mandados de busca e a apreensão e ações de fiscalização em 12 estados. Ao todo, o período entre 2024 e meados de 2026 registra cerca de 175 mil unidades apreendidas. As unidades não são necessariamente canetas, mas incluem ampolas, frascos e outros recipientes.

 

Em março, O GLOBO mostrou que as apreensões somavam R$ 51 milhões de 2024 a fevereiro de 2026.

 

Desde janeiro, a Anvisa já publicou dez ações de proibição de importação de produtos irregulares que contém medicamentos baseados no GLP-1, mas isso não impede o crescimento da ida de brasileiros ao Paraguai. Em alguns casos, a entrada de medicamentos provenientes de países como o Paraguai é autorizada pela Justiça: o GLOBO identificou processos em que brasileiros alegam o custo elevado para justificar a ida até o país vizinho para comprar medicamentos similares, aprovados pela agência sanitária paraguaia.

 

O mesmo acontece nas redes sociais. Influenciadores e farmácias paraguaias fazem propagandas direcionadas a brasileiros com o passo-a-passo para obter o produto. A polêmica ocorre porque, na maioria dos casos, os medicamentos têm o mesmo princípio ativo de produtos já aprovados no Brasil.

 

O GLOBO identificou perfis que explicam como consumidores podem ir para o Paraguai e adquirir os medicamentos, com cuidados para o transporte e como ser autorizado a passar pela alfândega após análise da Anvisa. Por outro lado, anúncios nas redes sociais também garantem a entrega com “frete grátis” para todo o Brasil de medicamentos como o Tirzec e Lipoland, produzidos com o mesmo princípio ativo do Mounjaro, mas que tiveram a importação proibida no Brasil pela Anvisa.

 

Além do aumento da importação clandestina, houve aumento das notificações adversas relacionadas ao uso de canetas emagrecedoras, segundo a Anvisa. Ainda não há dados, porém, que associem essa alta ao aumento da circulação de medicamentos contrabandeados.

 

“Como esses dados (de reações) são declaratórios e dependem da qualidade das informações enviadas por cidadãos ou profissionais de saúde, não é possível estabelecer recortes específicos que permitam identificar casos relacionados a medicamentos obtidos por vias ilegais, produtos industrializados ou manipulados, nem segmentar os dados entre reações adversas, queixas técnicas e desvios de qualidade”, esclareceu a Anvisa.

 

Médico endocrinologista, Carlos Couri afirma que a chegada das canetas emagrecedoras ainda é razoavelmente recente no mercado e, com isso, a pesquisa sobre possíveis efeitos adversos ainda é incipiente. O médico, entretanto, sublinha o perigo do uso de medicamentos contrabandeados,

 

— O ponto principal é que quem usa caneta contrabandeada geralmente não faz com acompanhamento médico. Se a pessoa adquire de forma ilegal, usa de acordo com a vizinha, um vídeo da rede social, ou IA — diz.

 

Couri também destaca que, além das importações clandestinas, vem crescendo no Brasil a produção em larga escala por farmácias de manipulação. Segundo levantamento feito pela Anvisa, a importação de insumos farmacêuticos para a manipulação de canetas tem sido incompatível com o mercado nacional. No segundo semestre do ano passado foram importados 100kg de insumos, o que seria o bastante para produzir 20 milhões de doses.

 

A Anvisa destaca que classifica as canetas emagrecedoras como sujeitas a retenção de receita médica. “O acompanhamento médico é extremamente importante durante a administração desses medicamentos, pois eles possuem uma série de contraindicações para condições específicas de saúde”, afirma a agência.

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