Abrafarma Logo
Área
Restrita
Abrafarma Logo

Com queda da patente do Ozempic, mercado de canetas emagrecedoras deve dobrar e ganhar genéricos

12 de janeiro de 2026
Fonte: Jornal Folha de S. Paulo

Fim da exclusividade da semaglutida impulsiona setor farmacêutico, que pode faturar R$ 20 bilhões em 2026 Levantamento mostra que só 1,1% dos adultos com sobrepeso e 2,5% dos obesos usam esses medicamentos no Brasil.

 

Cláudia Collucci

 

O mercado brasileiro de remédios emagrecedores deve entrar em nova fase de expansão a partir de março, com o fim da patente da semaglutida, princípio ativo do Ozempic e do Wegovy, e a corrida das farmacêuticas para a produção de genéricos e similares, com preços estimados entre 30% e 50% menores.

 

Relatório da UBS BB Corretora, braço de pesquisa e investimentos fruto da associação entre o banco suíço UBS e o Banco do Brasil, o faturamento dessas drogas, chamadas de agonistas de GLP-1, pode chegar a R$ 20 bilhões neste ano, quase o dobro dos R$ 11 bilhões estimados para 2025.

 

A expectativa é que, com a chegada dos genéricos, haja ampliação do acesso. Segundo o documento, atualmente, só 1,1% dos adultos com sobrepeso e 2,5% dos obesos usam esses medicamentos no Brasil. Nos Estados Unidos, o índice chega a 4,4% entre pessoas com diabetes e sobrepeso.

 

Nelson Mussolini, presidente do Sindusfarma (Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos), diz que o fim da patente deve acirrar a concorrência. Dados obtidos pela Folha na Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) sobre pedidos de registro de versões genéricas reforçam essa corrida.

 

Para medicamentos sintéticos, há 11 pedidos de registro contendo semaglutida e sete de liraglutida —principio ativo do Victoza (diabetes) e Saxenda (obesidade)—, cuja patente caiu em novembro último. Eles estão em análise ou aguardando início da avaliação.

 

Em relação aos medicamentos biológicos, constam no painel da agência um pedido contendo combinação de semaglutida com insulina icodeca (ação ultralonga; uma única injeção semanal), um pedido de liraglutida e um de semaglutida.

 

Entre as empresas que já anunciaram investimentos para a produção de genéricos, estão EMS, Eurofarma e Hypera. "Toda vez que cai a patente de um medicamento, há ampliação do acesso em razão do preço. A concorrência é o melhor método de controle de preços que existe", afirma Mussolini.

 

Para o endocrinologista Bruno Geloneze, professor e pesquisador da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), no entanto, o impacto sobre o acesso será limitado porque, mesmo com redução de preços, o o tratamento seguirá restrito, majoritariamente, às classes A e B. "O impacto maior será nos lucros das farmacêuticas", diz.

 

O crescimento do mercado ocorre em meio ao avanço da obesidade no país. Dados do World Obesity Atlas indicam que 68% da população brasileira está acima do peso e 31% é obesa. Entre 2006 e 2023, a obesidade entre adultos passou de 11,8% para 24,3%, enquanto o sobrepeso avançou de 42,6% para 61,4%.

 

No Brasil, o preço ainda é uma barreira. Uma caixa de semaglutida ou tirzepatida custa hoje entre R$ 900 e R$ 3.000 e não é coberta pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Em 2025, a Conitec (Comissão Nacional de Incorporações de Tecnologias) rejeitou a oferta da semaglutida para obesidade, citando impacto orçamentário estimado em R$ 7 bilhões em cinco anos.

 

Para os analistas Vinícius Strano e André Salles, responsáveis pelo relatório da UBS BB, a entrada de genéricos pode recolocar o tema em discussão. "Como o principal argumento da Conitec foi o custo, preços potencialmente mais baixos podem reacender o debate sobre a inclusão desses medicamentos no SUS", afirmam.

 

Eles ponderam, no entanto, que ainda é incerto como um eventual aumento da penetração impactaria os gastos do SUS. Uma das frentes abertas pelo Ministério da Saúde para levar o produto à rede pública é a parceria firmada entre a EMS e a Fiocruz para transferir à fundação a tecnologia de produção das canetas emagrecedoras.

 

No ano passado, também a pedido do ministério, a Anvisa decidiu acelerar a análise dessa classe de medicamentos sob protesto do setor farmacêutico e de técnicos da agência que apontaram risco de insegurança jurídica e de atrasar a avaliação de outras terapias mais importantes.

 

Na opinião de Geloneze, se o SUS vier a ofertar o tratamento, a prioridade deveria ser de pacientes com obesidade associada a diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares ou renais —um grupo estimado entre 5 e 10 milhões de pessoas.

 

O médico defende que a incorporação dessas drogas só faz sentido quando integrada a equipes de saúde treinadas e a programas de mudança de estilo de vida. "O objetivo não deve ser apenas perder peso, mas melhorar desfechos como infarto, insuficiência cardíaca e renal", afirma. Sem acompanhamento nutricional e incentivo à atividade física, diz ele, o tratamento perde efetividade e sustentabilidade.

Você é jornalista? Participe da nossa Sala de Imprensa.

Cadastre-se e receba em primeira mão: informações e conteúdos exclusivos, pesquisas sobre a saúde no Brasil, a atuação das farmácias e as principais novidades do setor, além de dados e imagens para auxiliar na produção de notícias.

Vamos manter os seus dados só enquanto assim o pretender. Ficarão sempre em segurança e a qualquer momento, pode deixar de receber as nossas mensagens ou editar os seus dados.