Como é formado o preço do diesel e o que explica o aumento registrado no RS na última semana
17 de março de 2026Combustível subiu 8,8% em uma semana, chegando a um patamar não visto desde outubro de 2022.
VINICIUS COIMBRA
A instabilidade da economia global encareceu o diesel no Rio Grande do Sul nos últimos dias. O levantamento mais recente da Agência Nacional do Petróleo (ANP) indica uma disparada nos dois tipos do combustível – S10 e S500: o litro do primeiro subiu de R$ 6,23 para R$ 6,78 (8,8%); e o segundo, de R$ 6,16 para R$ 6,70 (8,7%), nas duas pesquisas semanais divulgadas pela agência em março. Ambos não tinham um patamar tão alto desde outubro de 2022 (veja o infográfico abaixo).
Diferenças
O diesel S10 é mais moderno e sustentável, obrigatório para motores fabricados a partir de 2012 para garantir o funcionamento dos sistemas de controle de emissões. Já o S500 é o diesel comum, com maior concentração de enxofre, indicado apenas para veículos antigos (pré-2012) e maquinários agrícolas que não possuem as restrições tecnológicas dos motores novos.
Composição do preço
Por meio de nota à reportagem, a Petrobras informou que o preço dos dois combustíveis é composto da seguinte maneira no Estado:
Diesel S500
Petrobras: 45,6%
Biodiesel: 13,3%
Tributos federais: 5,3%*
Tributos estaduais: 11,3%
Distribuição e revenda: 24,5%
Diesel S10
Petrobras: 46,6%
Biodiesel: 13,1%
Tributos federais: 5,3*
Tributos estaduais: 11,2%
Distribuição e revenda: 23,8%.
*Na semana passada, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou um decreto que zerou as alíquotas do PIS e do Confins sobre a importação e comercialização do diesel. A medida seguirá até 31 de dezembro de 2026.
O que explica o cenário
Zero Hora conversou com o economista Edson Silva, que atuou durante 15 anos na ANP e atualmente dirige a consultoria ES Petro. Veja as perguntas e respostas:
Como é formado o preço do diesel até chegar ao consumidor?
O preço é formado em uma cadeia que começa na refinaria, da Petrobras, privada ou via importação. É nesse início que incide a maior carga tributária. O outro elo é a distribuidora, que é a única com acesso à refinaria. Ela compra o diesel mineral, adiciona o biodiesel e repassa aos postos de combustíveis, que vendem ao consumidor final.
Por que o preço do diesel muda entre os Estados brasileiros?
Há três fatores principais: o ICMS, o imposto estadual, varia de acordo com a unidade da federação. Há também uma questão logística, já que Estados que possuem refinarias, como Rio Grande do Sul e Paraná, tendem a ter, em tese, custos de transporte menores do que Estados como Santa Catarina, que não tem (refinaria) e precisam pagar mais pelo frete. Em terceiro lugar, Estados produtores de biodiesel têm vantagem no custo da mistura em relação aos que precisam trazer o insumo de fora.
O que explica a disparada nos preços do diesel nas últimas semanas?
O principal motor é a instabilidade no mercado internacional, especificamente a flutuação do barril de petróleo Brent. Conflitos geopolíticos, como as tensões envolvendo os Estados Unidos e o Irã, fazem o preço disparar. No entanto, no Brasil, o aumento foi de 12,8% em uma semana, o que considero desmesurado.
Por que, na sua avaliação, o aumento de preços no Brasil não se justifica neste cenário?
Existem quatro fatores que deveriam segurar o preço, mas não estão sendo refletidos. O governo federal zerou PIS/Cofins (tributos), o que deveria reduzir o preço em R$ 0,64. O segundo é que temos uma baixa dependência, já que importamos apenas 28%; os outros 72% são produção nacional. Também há uma queda no consumo, que caiu 12,3% entre dezembro e janeiro no Rio Grande do Sul. Por último, a Petrobras não acompanhou o aumento do preço internacional do petróleo.
Estamos vivendo um aumento de preços do aumento como se estivéssemos comprando todo o diesel no mercado internacional. É algo que não se justifica.
Por que o país sofre com altas internacionais?
O Brasil é autossuficiente na produção de petróleo, mas ainda precisa importar derivados. Cerca de 28% do diesel consumido no país é importado. A Petrobras não repassa todo o aumento do mercado internacional, porque nós somos pouco dependentes da importação. Então, não é falta de produto.
Mas o que então explica o aumento de preços?
A ANP e a Petrobras confirmam que o abastecimento está garantido, inclusive com leilões de diesel. Penso que há distribuidores simulando a falta de produto para aumentar o preço. A ANP, o Procon e o Ministério Público têm a obrigação de dar uma satisfação à opinião pública sobre esse impacto desmesurado do aumento do diesel no mercado interno.
Qual o impacto do aumento do diesel em comparação com a gasolina, que também subiu?
O diesel é uma matéria-prima na formação dos preços da indústria, dos serviços, do transporte, em um contexto em que o Brasil é dependente do transporte rodoviário. O aumento do preço da gasolina impacta para o consumidor final; o do diesel influencia estruturalmente.
Até que patamar os preços podem chegar se o conflito no Oriente Médio continuar?
Ninguém sabe até onde pode chegar o impacto se a guerra prosseguir. Há sinais de que ela vai arrefecer, mas não há como ter uma previsão. O Brasil tem uma situação favorável neste momento por conta da posição que a Petrobras ocupa, como principal produtora, além de o país ser autossuficiente. Por isso, não deveríamos passar por esse aumento absurdo de preços.
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