Consumo das famílias resiste e indica aceleração do PIB no 1º trimestre, dizem economistas
16 de abril de 2026Especialistas avaliam que o crescimento mensal do varejo em fevereiro, pela segunda vez consecutiva, indica que o consumo das famílias deve seguir resiliente no primeiro trimestre, a despeito do custo de vida e do endividamento elevados
Por Anaïs Fernandes , Valor — São Paulo
Apesar do resultado abaixo do esperado, o crescimento mensal do varejo brasileiro em fevereiro, pela segunda medição consecutiva, indica que o consumo das famílias deve seguir resiliente no primeiro trimestre de 2026, a despeito do custo de vida e do endividamento elevados, dizem economistas. A maior disponibilidade de renda e crédito, alimentada por programas e estímulos do governo, tem sustentado o setor e aponta para reaceleração do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre do ano, após a atividade ficar praticamente estagnada no fim de 2025, afirmam analistas.
O volume de vendas do varejo restrito acelerou a alta para 0,6% em fevereiro, ante janeiro, quando avançou 0,4%, informou o IBGE. O resultado ficou abaixo da expectativa mediana colhida pelo Valor Data, de 1%, mas o segmento havia caído 0,3% em dezembro de 2025.
O varejo ampliado — que inclui veículos, material de construção e “atacarejo” e é o mais importante para o cálculo do PIB —, subiu 1% em fevereiro, também mais do que em janeiro (0,9%), mas abaixo da expectativa mediana (1,7%). Em dezembro, porém, o segmento recuou 0,9%.
Mesmo com o resultado aquém do esperado, tanto o varejo restrito quanto o ampliado atingiram, em fevereiro, novo patamar recorde da série histórica, iniciada em 2000.
O desempenho em fevereiro foi dividido entre as oito atividades que compõem o varejo restrito. Na passagem de janeiro, registraram aumento das vendas os segmentos de livros, jornais, revistas e papelaria (2,4%), combustíveis e lubrificantes (1,7%), hiper, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo (1,1%) e artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos e de perfumaria (0,3%).
Por outro lado, ficaram no campo negativo as atividades de equipamentos e material para escritório, informática e comunicação (-2,7%), outros artigos de uso pessoal e doméstico (-0,6%), tecidos, vestuário e calçados (-0,3%) e móveis e eletrodomésticos (-0,1%).
Incluindo os segmentos do varejo ampliado, houve altas em veículos, motos, partes e peças (1,6%) e material de construção (0,5%). O atacarejo é calculado apenas na comparação interanual e registrou queda de 1%.
Especificamente sobre os veículos, o Bradesco observa que as vendas aumentaram 4,5% no primeiro bimestre do ano, e os dados de emplacamentos indicam novo avanço da categoria em março, diz. Com isso, o crescimento das vendas de veículos no primeiro trimestre deve superar o 2,5% registrado no trimestre encerrado em dezembro de 2025, aponta.
Em uma análise mais geral, Matheus Pizzani, economista do PicPay, diz que o varejo brasileiro conseguiu crescer em fevereiro por fatores relativos à conjuntura do período, sobretudo pelo fato de a inflação, até aquele momento, ainda não ter sido afetada pelo conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã. Segundo ele, esse fator foi responsável por impulsionar o consumo de itens como combustíveis e alimentos.
Entre as quedas, Pizzani destaca vestuário/calçados e móveis/eletrodomésticos. No caso do primeiro, a retração pode ser atribuída ao início de uma sazonalidade menos favorável, o que deve se reverter nos próximos meses com a entrada dos novos modelos de troca de estação, diz.
Já no caso de móveis e eletrodomésticos, Pizzani afirma que a demanda segue a trajetória descendente esperada em função do nível de juros elevado e do alto endividamento das famílias.
Ainda que o consumo siga marcado por esses vetores negativos, Pizzani diz ser possível notar algum impacto de medidas adotadas no ano passado, principalmente a ampliação da isenção do Imposto de Renda.
“Embora não tenha a mesma potência imaginada quando do desenho da política, seu efeito líquido parece ter sido responsável por alavancar o resultado de setores específicos, como artigos farmacêuticos e perfumaria e livros, jornais e papelaria, este último tendo se recuperado de duas quedas consecutivas e fazendo valer ainda o efeito sazonal relacionado à retomada do ano letivo das escolas”, afirma.
A magnitude dos efeitos da medida pode ser inferior à imaginada, diz Pizzani, mas os resultados práticos da isenção do IR parecem alinhados ao diagnóstico inicial de permitir um transbordamento para um consumo que não se limite a itens essenciais, como alimentos e combustíveis, cuja oscilação costuma comprometer parcela significativa do orçamento das famílias em momentos de maior aperto inflacionário.
Esses efeitos, no entanto, tendem a ser menos sentidos nas próximas medições, segundo ele, por causa da perspectiva de juros ainda altos, da ausência de fatores sazonais benignos e do menor nível de confiança dos consumidores.
Na comparação com fevereiro de 2025, o varejo restrito cresceu 0,2%, mas o ampliado caiu 2,2%. Essa comparação interanual pode indicar perda de fôlego mais à frente, diz Leonardo Costa, economista do ASA, em linha com um cenário de desaceleração gradual da atividade este ano, ante 2025.
Mas o calendário do Carnaval também atrapalha a comparação interanual, diz a Kínitro Capital, que não mudou sua avaliação de consumo resiliente e reaceleração do PIB no início de 2026. “A leitura do trimestre segue inalterada. Além disso, os dados coincidentes de março apontam para novas altas, a despeito da escalada do conflito impactar segmentos específicos”, afirma o economista João Savignon.
O “monitor em tempo real” da Kínitro para o PIB aponta crescimento de 1,1% no primeiro trimestre de 2026, em relação aos três meses imediatamente anteriores. É o mesmo valor indicador pelo monitor da XP.
Junto com o varejo, a recuperação do serviços prestados às famílias em fevereiro corrobora a visão da XP de aceleração do consumo no início de 2026. O IBGE divulgou na terça-feira que os serviços prestados às famílias cresceram 1,4% em fevereiro, após terem caído 0,5% em janeiro e apesar de os serviços totais terem ficado praticamente estagnados (0,1%).
Com o novo dado, o varejo ampliado avança 0,8% no trimestre móvel até fevereiro e tem “herança estatística” de 1,2% para o primeiro trimestre de 2026, aponta Rodolfo Margato, economista da XP.
Nas suas contas, tanto as atividades mais sensíveis à renda disponível quanto aquelas mais dependentes do crédito cresceram 0,9% cada em fevereiro, ante janeiro. “A maior disponibilidade de renda e crédito às famílias (a despeito do custo de vida e do endividamento elevado), impulsionada pelos estímulos fiscais do início do ano tem sido o principal vetor desse desempenho positivo na margem”, diz Savignon, da Kínitro.
A expectativa da XP é que o consumo das famílias ainda cresça de maneira robusta no primeiro semestre de 2026, após números decepcionantes na segunda metade de 2025. “Primeiro, a renda real disponível permanece em uma sólida tendência de alta, o que reflete o mercado de trabalho aquecido em conjunto com o aumento das transferências fiscais. Além disso, um amplo conjunto de medidas de estímulo governamental deve sustentar o consumo no curto prazo”, cita Margato.
Segundo o Goldman Sachs, a renda disponível real bruta das famílias cresceu 4,6% ano contra ano em fevereiro.
Iniciativas adicionais de crédito — incluindo um programa de renegociação de dívidas das famílias, em debate no governo — provavelmente trarão alívio nos próximos meses, diz Margato. Esse conjunto de medidas — aquelas já conhecidas e às que devem ser anunciadas — poderá adicionar mais de 1 ponto percentual ao crescimento do PIB este ano, estima.
Luis Otávio Leal, economista-chefe da G5 Partners, é mais cauteloso. Ele aponta que o varejo restrito acumula crescimento de 1,4% nos últimos 12 meses, o menor patamar desde junho de 2023, segundo Leal. “O varejo ampliado contraiu 0,4% nos últimos 12 meses, o segundo resultado negativo por essa métrica em quatro meses e o menor resultado desde maior desde 2023.”
Por isso, para ele, o comércio “vem em uma clara tendência de desaceleração, apesar dos últimos resultados mensais poderem ser considerados positivos”.
Na avaliação Buysidebrazil, o nível positivo do varejo ainda é sustentado pelos segmentos ligados a bens essenciais, como farmácias, supermercados e combustíveis, além de um efeito base decorrente da retração observada no fim de 2025. “O ambiente de renda disponível mais pressionado, refletindo o maior comprometimento da renda das famílias, tende a impactar o comércio, já exemplificado pela concentração do consumo em itens essenciais neste começo de ano”, afirma Henrique Miareli, economista da consultoria.
O banco ABC Brasil diz que os resultados do varejo e dos serviços em fevereiro colocam um viés de baixa para o seu monitor do PIB, que, atualmente, indica alta de 1% no primeiro trimestre de 2026, ante o quarto de 2025.
Você é jornalista? Participe da nossa Sala de Imprensa.
Cadastre-se e receba em primeira mão: informações e conteúdos exclusivos, pesquisas sobre a saúde no Brasil, a atuação das farmácias e as principais novidades do setor, além de dados e imagens para auxiliar na produção de notícias.
Vamos manter os seus dados só enquanto assim o pretender. Ficarão sempre em segurança e a qualquer momento, pode deixar de receber as nossas mensagens ou editar os seus dados.