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ESG sem diagnóstico é assumir riscos evitáveis

08 de junho de 2026
Fonte: Portal JOTA

Sem leitura do território, investimento social perde eficiência, amplia custos e compromete o próprio negócio

 

CAROLINA MACIEL

Diretora-executiva do Instituto Mondó. Mestre em Ciências Contábeis, com MBA em Gerenciamento de Projetos e certificação PMDPro, tem mais de 10 anos de experiência em educação superior, políticas públicas, desenvolvimento social e territorial

JULIA JUNGMANN

Diretora de Desenvolvimento Institucional do Instituto Mondó. Especialista em Administração Pública pelo Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa e mestranda em Gestão de Políticas Públicas na FGV. Atua há mais de dez anos em projetos de desenvolvimento territorial com foco em educação, saúde, geração de renda, infraestrutura e mobilização social

CAROLA MATARAZZO

Diretora-executiva do Movimento Bem Maior, preside o Conselho de Governança do GIFE. Administradora formada pela FAAP, com extensões em Avaliação de Investimento de Impacto Social pelo Insper e em Liderança Executiva em Desenvolvimento na Primeira Infância pela Universidade Harvard, atua há mais de 25 anos no terceiro setor.

 

Empresas brasileiras estão assumindo riscos evitáveis ao investir em ESG sem entender os territórios onde atuam.

 

Parte relevante do investimento social privado ainda é desenhada a distância, com baixa densidade de dados e pouca escuta local. O resultado é conhecido: baixo engajamento, execução irregular, aumento de custos e, em casos mais críticos, conflitos comunitários e desgaste reputacional. Trata-se de uma falha operacional com impacto direto na alocação de capital.

 

Há uma diferença decisiva entre levantar informações e produzir um diagnóstico estratégico. O primeiro descreve. O segundo interpreta evidências e orienta decisões a partir da leitura de quem vive o território, reduzindo incertezas, variável central em qualquer investimento. Sem essa leitura, o investimento social financia sintomas em vez de causas. Pode resolver o problema errado, agir de forma inadequada ou até criar dependência sem fortalecer capacidades locais. O resultado é perda de eficiência.

 

No contexto brasileiro, isso se agrava. O volume de recursos destinados ao investimento social é limitado, e decisões mal calibradas impactam diretamente o retorno. Investir sem base em dados e escuta estruturada deixa de ser apenas ineficiente e passa a representar risco evitável. Esse quadro se torna ainda mais sensível diante das mudanças climáticas. Eventos extremos deixaram de ser exceção e passaram a compor o ambiente de risco dos territórios e, portanto, das operações empresariais.

 

A adaptação climática exige enfrentar a vulnerabilidade social. Territórios com baixa renda, infraestrutura precária e fragilidade institucional tendem a sofrer impactos mais intensos e duradouros. A mudança climática amplia desigualdades já existentes.

 

Nesse cenário, a dimensão social do ESG deixa de ser reputacional e passa a afetar diretamente o negócio. Investidores e conselhos já observam como empresas gerenciam impactos sobre colaboradores, cadeias produtivas e comunidades. Impactos mal geridos retornam como risco operacional, jurídico e reputacional. Desigualdade, baixa qualificação e lacunas de infraestrutura afetam produtividade, elevam custos e reduzem previsibilidade.

 

A resposta exige uma abordagem integrada dos territórios. Educação, saúde, infraestrutura, renda, moradia, água e energia são dimensões interdependentes. Ignorar essa conexão compromete a capacidade de resposta das comunidades. Uma escola sem acesso à água compromete educação e saúde. A ausência de saneamento amplia doenças e reduz produtividade. Falhas em mobilidade, energia e conectividade impactam serviços, renda e a reação a eventos extremos.

 

Nesse contexto, o diagnóstico estrutura a tomada de decisão e orienta a alocação de recursos. Um diagnóstico estratégico combina escuta estruturada, dados e orientação prática. O resultado deve ser um mapa acionável de prioridades, riscos e sequenciamento. Em territórios complexos como a Amazônia, essa abordagem é ainda mais necessária. Em Breves, no Marajó, apenas 1,18% dos domicílios têm acesso à rede pública de esgoto, muito abaixo da média nacional de 41,93%. Na área urbana, apenas 32% das escolas públicas contam com água encanada.

 

Os indicadores apontam vulnerabilidade. O diagnóstico aprofunda a leitura ao evidenciar causas. Gargalos de infraestrutura, limitações logísticas e baixa coordenação institucional elevam custos, aumentam riscos e reduzem a eficiência do capital. Ignorar essas condições não apenas compromete o impacto social, mas distorce decisões de investimento.

 

Sem essa leitura, a intervenção tende a atuar na superfície, com baixa capacidade de gerar impacto duradouro. Há a percepção de que processos participativos encarecem a execução. Quando bem estruturados, ocorre o contrário. Reduzem custos, encurtam o tempo entre intervenção e resultado e aumentam a sustentabilidade das iniciativas. Diagnóstico não é mapear tudo, mas mapear o necessário com rigor, alinhado à capacidade real de intervenção. Quando descolado do orçamento, gera expectativas não atendidas e passivo reputacional.

 

O momento exige mais do que ações pontuais. Empresas, governos e organizações compartilham responsabilidade sobre o desenvolvimento e a resiliência dos territórios. Isso implica uma mudança de postura. Sair de uma atuação reativa e avançar para estratégias capazes de fortalecer capacidades locais e preparar comunidades para enfrentar choques climáticos, econômicos e sociais.

A implicação para o negócio é direta. Empresas que incorporam diagnóstico reduzem a variabilidade de resultados, aumentam a eficiência do capital e fortalecem sua licença social para operar. As que ignoram essa etapa incorporam risco. Sem uma dimensão social consistente, não haverá adaptação climática efetiva. A agenda ESG amadureceu. O próximo passo é transformar intenção em execução baseada em evidência.

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