Farmacêuticas nacionais buscam parceiros para financiar expansão
06 de setembro de 2024Entre as possíveis transações estão a venda de 10% a 15% da Cimed, que contratou o J.P. Morgan para assessorar o negócio.
Por Fernanda Guimarães, Mônica Scaramuzzo e Beth Koike — De São Paulo
Grandes grupos farmacêuticos nacionais voltaram a mandatar processos competitivos de venda de participação minoritária para financiar estratégias de aceleração de crescimento e com o olhar também para o planejamento sucessório. Controladas por conglomerados familiares e grandes geradoras de caixa, essas empresas, até há pouco tempo, mantinham distantes operações de fusões e aquisições (M&A).
Dentre os grupos com negociação na mesa, está a Cimed, do empresário João Adibe, que ganhou fama com os hidratantes labiais Carmed. A companhia contratou o americano J.P. Morgan para ajudar a avaliar uma venda entre 10% e 15%, segundo informou o Valor na semana passada. O grupo de Adibe também esteve perto de comprar a Jequiti, da família de Silvio Santos, mas as negociações não foram adiante.
Já União Química, do empresário Fernando de Castro Marques, que tem feito importantes aquisições no país nos últimos anos, não descarta a entrada de um sócio no negócio. A empresa tinha planos de fazer uma oferta pública de ações (IPO, na sigla em inglês), mas o mercado de capitais não indica condições favoráveis no curto prazo.
“Boom” dos genéricos impulsionou consolidação entre 2009 e 2010
Não há um mandato na rua para a busca de um sócio, mas os bancos de investimentos sempre apresentam negócios para a companhia, que discute caso a caso o negócio, mas sem nada ainda engatilhado, segundo entrevista de Marques ao Pipeline em julho.
A família Marques tem tradição no setor farmacêutico. O irmão de Fernando Marques, o empresário Cleiton de Castro Marques, é dono da Biolab . Os dois são tios de João Adibe, da Cimed. Cada um deles tem negócios independentes.
Outra empresa que tentou vender uma fatia minoritária foi a Eurofarma para o fundo de pensão canadense CPP, mas o negócio esbarrou no valor de mercado da companhia, segundo fontes a par do assunto.
As farmacêuticas brasileiras estão mais abertas a conversar, negociar fatias para se capitalizar diante de uma maior alavancagem, pressão no segmento hospitalar diante da crise no setor de saúde e desejo de diversificar negócio para não ficar tão dependente de genéricos, mercado em que a concorrência é muito acirrada.
Um dos segmentos que essas farmas têm olhado é de beleza e cosméticos - considerado um mercado menos “comoditizado” em relação aos genéricos.
No mês passado, a Vinci Partners vendeu 50% da Farmax, fabricante de cosméticos e itens de cuidados pessoais que havia sido adquirida pela gestora em 2021, para os fundos Vydia e Lazuli Partners. Grupos farmacêuticos olharam o ativo interessados em diversificar seu portfólio com itens de beleza e aumentar sua penetração no varejo farmacêutico, uma vez que a Farmax está presente em cerca de 95% das drogarias do país.
Em abril, o Pátria vendeu a Natulab para o fundo Pettra, que tem entre seus acionistas o ex-presidente da Bombril, Ronnie Motta, e empresários dos setores de mineração e petróleo.
Geradoras de caixa, as farmacêuticas nacionais não têm muita tradição de se associar a fundos de “private equity” (que compram participações em empresas) ou a investidores estratégicos.
O último grande movimento de consolidação do setor foi no fim dos anos 2000, com o “boom” dos medicamentos genéricos no Brasil. Em 2009, a multinacional Sanofi comprou a empresa nacional Medley. Um ano depois, foi a vez da americana Pfizer adquirir 40% do laboratório goiano Teuto .
No entanto, a Pfizer se desfez de sua fatia sete anos depois. Gestoras, como a Advent, chegaram a olhar os ativos, que voltou para as mãos da família Melo, dona do negócio. Fontes afirmam que a família controlada pensa novamente em buscar novo investidor. Ainda não há bancos contratados, mas a família Melo já teria em mente um preço de quanto vale seu negócio.
Nos últimos anos, as multinacionais começaram a desinvestir do setor de genéricos e também de parte dos medicamentos sem prescrição (OTC), vendidos fora do balcão, para se dedicarem produtos de alta complexidade.
No caso da Sanofi, a companhia começou a se desfazer de medicamentos dessa área no Brasil e América Latina. A Eurofarma comprou no ano passado a marca de genéricos da múlti. Fontes afirmam que a francesa busca comprador para os negócios OTC, que incluem as marcas Dorflex e Targifor, na região, um negócio de R$ 6 bilhões.
Outro processo que foi para a rua foi a da Cristália, que tinha contratado o Itaú BBA para estruturar sua venda, conforme antecipou o Valor. No entanto, por questões societárias, o processo voltou para a gaveta, disseram fontes. A EMS, de Carlos Sanchez, também teria iniciado conversas para uma possível venda de participação, mas interrompeu o processo, disse outra fonte. O processo, enquanto estava na rua, estava muito competitivo, conforme fontes que acompanharam a transação.
Nelson Mussolini, presidente do Sindusfarma, uma das principais entidades do setor, afirmou que não vê um novo “boom” de consolidação, uma vez que as empresas nacionais são grande geradoras de caixa. Mussolini não comenta casos específicos.
Segundo um banqueiro de investimento, muitos dos processos acabam travando por conta do descompasso de preço entre compradores e vendedores. Esse foi o desafio de processos como o da Eurofarma. Uma das fontes citou que o fato de parte das vendas só envolver uma participação acaba também afetando o “valuation”, já que não existe, nesse caso, prêmio de controle embutido.
Uma das fontes consultadas disse que o interesse maior tem sido observado pelos investidores financeiros, como os fundos de private equity. Nesse caso, a visão é de que o fundo pode ajudar na governança da empresa antes de uma oferta inicial de ações.
Procurada, a Cimed reafirmou que não comenta a informação. A EMS informou, em nota, que não comenta rumores de mercado e trabalha com o foco na expansão dos seus negócios.
A Cristália informou em comunicado que “não está à venda”. Eurofarma também disse que não comenta rumores de mercado. CPP não quis se manifestar sobre o tema.
Em nota, a Sanofi informou que “é política não comentar sobre rumores de mercado. Continuamos focados em entregar valor aos nossos ‘stakeholders’ por meio de nossas operações e iniciativas estratégicas”. Fernando Marques não retornou os pedidos de entrevista.
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