“Farmácias podem integrar o sistema de saúde e ajudar o paciente a viver mais", Sergio Mena Barreto, CEO da Abrafarma
21 de outubro de 2025Natalia Cuminale
A farmácia evoluiu nos últimos anos. De um simples balcão de remédios, os estabelecimentos buscam se tornar um hub de saúde, onde o cliente poderia vivenciar uma jornada completa de cuidado, da prevenção ao acompanhamento – uma transformação que redefine seu papel no sistema de saúde. Para discutir essa evolução, o novo episódio de Futuro Talks recebeu Sergio Mena Barreto, CEO da Associação Brasileira das Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma).
Cerca de 94 mil farmácias integram o mercado brasileiro e 11 mil delas são filiadas à Abrafarma, presentes em mais de 1.100 cidades. Em torno de 8 mil já oferecem salas para exames e vacinação. Segundo Barreto, a telemedicina é uma possibilidade futura, que agregaria ainda mais ao cuidado que a farmácia pode oferecer ao usuário. Durante a entrevista, ele destacou a expansão geográfica das grandes redes e o domínio local das regionais. Também falou sobre a função de uso de dados como o CPF nas compras, que permite uma maior assertividade de gerenciamento de estoque. Esse uso estratégico da informação torna o setor mais eficiente, ao mesmo tempo em que fideliza o consumidor.
O CEO da Abrafarma também comentou movimentos recentes de mercado e na legislação, como a aprovação no Senado do PL de farmácias em supermercados. Para ele, a decisão amplia ainda mais as possibilidades de oferta de medicamentos e outros serviços e, dificilmente, deve ser percebido como risco para o mercado das farmácias. Por fim, Barreto apontou tendências que prometem transformar o setor. Entre elas estão o uso da inteligência artificial para controle de estoques e outras demandas e a consolidação do conceito Pharmacy First, já aplicado no exterior, que prevê protocolos simples na farmácia para o acompanhamento de pacientes.
Confira o episódio completo:
Para começar você pode trazer um panorama do varejo farmacêutico? Qual é o tamanho desse mercado e como funciona a capilaridade das farmácias no Brasil?
Sérgio Mena Barreto – No Brasil, existem aproximadamente 94 mil farmácias. E 80% do negócio é gerado por 20% das empresas. A farmácia típica brasileira é muito pequena. Na Abrafarma, temos em torno de 11 mil farmácias associadas, que correspondem às 26 maiores redes. Essas redes concentram quase metade do negócio do país. Estamos falando de um varejo de cerca de 230 a 235 bilhões de reais. Além disso, existem mais 10 a 12 mil farmácias que respondem por outros 30%. Ou seja, cerca de 20 mil estabelecimentos concentram a maior parte do mercado.
É interessante lembrar Gonzalo Vecina, o primeiro presidente da Anvisa, com quem tivemos ótimas conversas. Ele dizia: “Sérgio, no Brasil não são necessárias mais do que 20 mil farmácias.” E é verdade: pouco mais de 20 mil estabelecimentos geram 80% do negócio. Há, portanto, uma certa concentração, ligada à dinâmica de mercado e à competência. As redes foram ocupando espaço e conquistaram sua participação no mercado graças à eficiência alcançada nos últimos anos.
O setor, pelo menos nas principais redes, já está consolidado o suficiente ou ainda há espaço para crescimento?
Sérgio Mena Barreto – Tem espaço. Por exemplo, na Abrafarma, que reúne as 26 maiores redes, temos metade do negócio e estamos presentes em apenas 1.100 cidades do Brasil. O país possui pouco mais de 5.000 municípios. Portanto, muitas cidades ainda não contam com essa grande rede, mais estruturada e que resolveu o problema de logística. Há, então, muito espaço para crescimento. Muitas vezes parece que há farmácias demais, mas ainda vemos uma ocupação geográfica concentrada nas grandes cidades e pontos estratégicos. O Brasil também é muito concentrado: se considerarmos São Paulo, Rio, Minas, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, esses estados representam cerca de 65% a 70% do país. Assim, é natural que a concentração de farmácias esteja maior nessas cidades, mas ainda há muito espaço para crescer.
Considerando que existem cerca de 90 mil farmácias distribuídas pelo país, será que a justificativa para essa ampla presença é justamente atender a uma necessidade local?
Sérgio Mena Barreto – Exatamente. É um pequeno negócio. A maioria dessas farmácias pequenas está nos municípios menores. Por exemplo, na Abrafarma, se considerarmos cidades com mais de 1 milhão ou acima de 300 mil habitantes, ocupamos 65% do share. Nas pequenas cidades, com 20 mil habitantes ou menos de 50 mil, a farmácia dominante é independente. Não há barreira de entrada: qualquer empreendedor pode abrir uma farmácia, desde que siga as regras sanitárias e conte com um farmacêutico.
O Brasil é muito grande, e nas pequenas cidades não estaremos presentes, porque uma cidade com 20 mil habitantes ou menos, ou com 8 mil, 6 mil habitantes, não comporta uma rede com toda a estrutura necessária, como uma Pague Menos, uma Drogaria São Paulo ou uma Panvel. Assim, há uma dinâmica própria: nas pequenas cidades, muitas pequenas farmácias dividem o mercado local.
Sob a perspectiva das grandes redes, faz sentido que queiram expandir sua atuação e continuar se consolidando no mercado, especialmente dentro das grandes cidades?
Sérgio Mena Barreto – O nosso negócio é a expansão geográfica e a expansão orgânica. Aquisição de empresas ou fusões são exceções. Por exemplo, isso ocorreu no passado com Raia, Drogasil, São Paulo e Pacheco. Eram oportunidades de crescimento: as empresas queriam se expandir e dar um salto de patamar. Hoje, existem redes regionais menores que acabam dominando seu mercado local. Apesar de termos uma grande rede nacional, a RD, com 3 mil lojas, o Brasil ainda é um país de negócios locais.
Em Belo Horizonte, por exemplo, a rede Araújo domina a cidade e Minas Gerais. No Ceará, é a Pague Menos; no Rio Grande do Sul, a Panvel; e no interior do estado do Rio Grande do Sul, a São João. Há, portanto, uma dominância local do negócio. A tendência de concentração é menor. De modo geral, as redes estão crescendo muito bem, e essa correlação de forças deve se manter por algum tempo.
“Há uma tendência de desaparecimento progressivo da pequena farmácia. Quando entrei nesse negócio, a farmácia independente representava 80% do mercado e as redes, 20%. Hoje, o associativismo bem estruturado já representa 80%, e as independentes, 20%, com vendas cada vez menores”.
Uma farmácia típica brasileira vende cerca de 60 mil reais por mês, ou 700 mil por ano. Uma farmácia da Abrafarma vende 9 milhões por ano, 12 vezes mais do que uma farmácia típica. Essa diferença se amplia ainda mais devido a diversos fatores que dificultam a operação de negócios muito pequenos.
O setor das farmácias enfrenta grandes desafios logísticos. Você poderia explicar um pouco essa questão?
Sérgio Mena Barreto – É um setor ineficiente. Temos uma medida que utilizamos no varejo, chamada OTIF. É o “On Time In Full”, ou seja, se tudo o que eu pedi à indústria foi recebido no prazo combinado e na quantidade completa. O OTIF médio da indústria farmacêutica brasileira é sofrível: de cada 100 pedidos que faço, apenas 70 são atendidos corretamente.
Ou seja, você pede e não chega o que pediu, porque não há estoque, porque não está em produção naquele momento ou por outros fatores. Imagine: quando eu pedi 100 unidades à indústria e recebi apenas 70, qual é a falta média do mercado? 50. Ou seja, de cada 10 produtos em uma farmácia de pequeno porte, cinco não estão disponíveis. A Abrafarma e essas grandes redes investiram ao longo dos anos em formas de superar essa ineficiência. Primeiro, começamos a montar uma rede própria de centros de distribuição.
Nessas 26 empresas, existem mais de 50 centros de distribuição próprios. Somos a maior rede de distribuição do Brasil, maior que o sistema da Abrafarma, da Abradilan ou dos distribuidores. Isso aumentou significativamente nosso nível de eficiência. Além disso, com genéricos e toda a política de BID, nossa falta é de 12. Ou seja, quando a indústria apresenta falta de 30 e o mercado de 50, a nossa é apenas 12. Em uma empresa como a RD, deve ser seis ou sete, quase sem falta de produto. Essa teia estratégica de suprimento foi o que diferenciou a rede das farmácias independentes. O cliente vai à farmácia e tem certeza de que encontrará o produto. E a segunda dinâmica é passar a identificar o usuário. A famosa história do CPF.
Me explique um pouco melhor essa questão do CPF.
Sérgio Mena Barreto – Isso não é um problema com o consumidor. O consumidor adora dar o CPF, sabe que tem benefício, sabe que é seguro, mas virou uma lenda urbana. Aí tinha uma lenda: “Ah, a farmácia pega o CPF, vende para o plano de saúde, e aí o plano de saúde aumenta o valor”. Essa informação do cliente é a mais preciosa que existe. Nem é utilizada de maneira explícita internamente, porque é fragmentada, ninguém tem a informação completa. A gente trata isso de forma segura — os dados são todos divididos para não correr o risco de vazamento.
Agora, para quê serve isso? Para ter um nível de assertividade enorme no pedido à indústria, no planejamento de médio prazo. Eu chego a um laboratório e digo: “Olha, no ano que vem vou querer tantas unidades, porque tenho certeza de que vão vender.” Como identifico o cliente, cada vez que ele entra, na grande maioria das vezes sei a cesta de índice e a frequência de compra. Óbvio que o negócio é muito mais planejado. E, quando planejo, posso comprar melhor, de forma mais assertiva, conseguir condições melhores, comprar um volume gigante e oferecer esse preço ao usuário final.
É, portanto, um processo ganha-ganha: ganha-ganha para a indústria, para o varejo e, principalmente, para fidelizar o usuário, garantindo que ele permaneça fiel ao negócio ao longo do tempo. Fora que você ganha um desconto, e no Brasil é out-of-pocket. Ou seja, em toda a América Latina, somos o único lugar do mundo onde o cidadão paga diretamente pelo remédio. Na Europa, quem paga é o governo; nos Estados Unidos, a seguradora; no Canadá, o governo.
Na Austrália, na China, em todos os lugares que vou no mundo, ninguém paga pelo remédio. Na América Latina, paga. Aqui, uma pessoa atendida pelo Programa Farmácia Popular representa apenas 2% do meu negócio. Agora, o cidadão hipertenso, diabético, asmático, com problemas cardíacos, digestivos, artrose ou psoríase, na maioria das vezes, paga do próprio bolso. Toda condição que eu conseguir oferecer para ele, para não haver ruptura de estoque e cuidar do preço, é melhor, porque aumenta a adesão ao tratamento.
Só para esclarecer: pedir o CPF não envia informação para plano de saúde ou indústria farmacêutica, é apenas para uso interno da farmácia, certo?
Sérgio Mena Barreto – Para ninguém. É óbvio, temos institutos que fazem auditoria de vendas, mas nunca têm o dado do consumidor. Isso é muito bem tratado. Acho que uma falha nossa é não comunicar esse direito para a sociedade. Precisamos realmente encontrar uma maneira de dizer isso melhor, deixar mais claro. Mas não existe hoje em dia negócio sem dado. Você não consegue comprar uma passagem aérea, não consegue pedir comida sem o seu CPF, você não faz absolutamente nada.
Aliás, na China, já há reconhecimento facial há muitos anos, e tudo é muito integrado. E a saúde precisa avançar nisso. Também somos muito arcaicos. Talvez o setor de saúde seja um dos mais fragmentados que existem. Não temos um cadastro nacional, um prontuário único nacional. Não temos uma série de coisas que poderiam gerar ganhos. Precisamos discutir essas questões. É necessário defender que o dado seja utilizado de forma correta, e que a empresa que o use mal seja responsabilizada. Mas não dá para demonizar o uso do dado para melhorar a vida da pessoa.
Você mencionou o out-of-pocket e os PBMs. Como tem visto esse crescimento recente desse modelo de acesso a medicamentos?
Sérgio Mena Barreto – Eu acho super legal. O Brasil precisa evoluir para o terceiro pagador. Se as empresas fossem mais incentivadas, talvez a cobertura fosse mais extensiva. Já existe uma certa cobertura; algumas empresas já custeiam os medicamentos de usuários crônicos e tudo mais. Acho que precisamos avançar nisso. Como podemos melhorar a qualidade de vida e a longevidade? Se conseguirmos reduzir os agravos e manter pessoas com doenças — especialmente aquelas associadas ao mundo moderno — controladas. Uma vez estive com o vice-presidente Geraldo Alckmin, que ia receber um ministro de um país da América Latina. Ele havia estudado os dados do gabinete antes da visita, que aconteceria logo após minha reunião.
Observou-se que a qualidade de vida naquele país era baixa e a expectativa de vida, reduzida. E ele disse que isso se devia a duas coisas: falta de água potável e falta de saneamento. Aqui no Brasil, avançamos em muitas áreas, mas na saúde, se cuidássemos melhor das pessoas e encontrássemos outras formas de incentivar a adesão ao tratamento, as pessoas poderiam viver mais, melhor e com mais qualidade de vida. Não adianta viver muito se a qualidade de vida for ruim. É preciso viver muito bem, e a saúde faz parte desse pacote.
Temos visto alguns movimentos tentando tornar isso mais presente na vida da sociedade e do cidadão.
Sérgio Mena Barreto – É muito pontual. Quando se tornar um movimento estrutural por parte das empresas, com incentivo, talvez no imposto de renda, aí eu acho que esse negócio decola e vira uma outra dinâmica.
Quero falar sobre farmácias como hubs de saúde. Hoje, depois da pandemia, com testes de Covid e outros serviços, como você vê o cenário atual? O que a farmácia já pode oferecer para se integrar à jornada de saúde do usuário, e quais seriam os próximos passos?
Sérgio Mena Barreto – Hoje estamos muito bem. Eu diria que avançamos bastante. A Abrafarma, há 25 anos, realiza todos os anos uma missão técnica ao exterior, para observar o que está acontecendo fora do Brasil, com curadoria muito bem feita. Este ano, vamos para a Coreia do Sul. A partir de 2008, 2010, começamos a perceber a transformação da farmácia fora do Brasil. A farmácia não tinha mais apenas um ambulatório para curativos ou aplicação de injeção; ela passou a ter uma sala mais completa.
Observamos isso em países como Inglaterra, Canadá, Estados Unidos e Espanha, e trouxemos essas ideias para o Brasil. Em 2014, aprovamos a Lei 13.021, que batizei carinhosamente de Lei do Ato Farmacêutico, permitindo que o farmacêutico realize uma série de atividades. Depois, batalhamos pela regulamentação infralegal. Em 2017, vieram as vacinas; há dois anos, os exames com a Anvisa. Quem regula por último também tem um privilégio: aprende com outras realidades e vê o que funciona ou não. Hoje, a regulação de testes no Brasil é muito boa, permitindo que a farmácia realize até 120 testes capilares.
“Existem pequenos ajustes a fazer, mas, de modo geral, tínhamos a visão de transformar a farmácia em um hub de saúde, cuidando de três áreas: prevenção, com vacinas; triagem, identificando se o usuário precisa ir a outro local, com testes; e adesão ao tratamento, com aconselhamento na loja”.
Preconizamos essas três disciplinas internamente e começamos a desenvolver os farmacêuticos, convencendo os empresários. Lembro-me muito bem, em um congresso da Abrafarma, do Dr. Jarbas Barbosa — hoje na OPAS e ex-presidente da Anvisa, que era secretário no Ministério da Saúde.
Nesse congresso Future Trends, montamos uma cabine, uma sala de serviço farmacêutico de nove metros quadrados, com maca e tudo, para demonstrar como deveria ser. Ele entrou e disse: “Ah, é isso que vocês querem.” Mas montamos a sala para que empresários e nosso pessoal vissem, com treinamento para realizar medições. Criamos todo o protocolo, qualificação do profissional e modelo da sala, para transmitir nossa visão. Hoje, das 11 mil farmácias da Abrafarma, 8 mil possuem sala de serviço. Ainda é necessário avançar em alguns pontos, como a revisão da RDC nº 44/2009 – e maior entendimento da vigilância sanitária em alguns locais. Mas saímos do zero para 8 mil, de 2014 até 2025, em 11 anos.
Agora há uma discussão sobre a possibilidade de ter o médico também dentro da farmácia. Qual sua visão sobre isso?
Sérgio Mena Barreto – A minha visão pessoal é que não cabe um médico na farmácia. Mas cabe, por exemplo, telemedicina, que aprendemos que funciona, especialmente a partir da pandemia. Hoje em dia, o celular está na mão do usuário. Ainda existe, por parte de alguns órgãos reguladores, uma discussão de vez em quando, meio confusa, de achar: “Ah, mas se o farmacêutico puder acionar um médico para atender um problema, a farmácia vai influenciar o médico?” Não vai, gente.
O ato médico é o ato médico. A Inglaterra tem o programa Pharma First, que diz o seguinte: se você tiver sinusite, uma infecção urinária, dermatite ou problema de ouvido, não vá ao hospital, vá à farmácia. Existe um protocolo em que o farmacêutico pode prescrever um antibiótico e avaliar a garganta da pessoa para saber se há necessidade de antibiótico. Por que ir a um pronto-atendimento caro e ainda ficar mais doente, se um problema simples pode ser resolvido na farmácia?
“No Brasil profundo, aquela farmácia pequena no município, que não é Abrafarma, mas está lá, poderia atuar assim. Por que uma pessoa com problema de ouvido, otite, infecção urinária ou dor de garganta não poderia ter o farmacêutico acionando um médico via telemedicina?”
Hoje temos todos os equipamentos necessários. Vi uma experimentação na Raia, em uma loja: filma o ouvido, filma a garganta; todos os equipamentos que permitem que seja como se o médico estivesse na frente do paciente, enquanto o farmacêutico mede os outros parâmetros. Isso vai facilitar. Conheci o Padilha há muitos anos, no Conselho Nacional de Saúde, no primeiro governo Lula, quando ajudei a implantar o Farmácia Popular. Quando assumiu o Ministério da Saúde, fiz uma visita, e ele me perguntou: “Quando você vai ter totem com médico e farmácia?” Eu respondi: “Quando a regulação permitir, ministro. Mas tem que ter em todo lugar, porque isso facilita a vida das pessoas.”
Ele concordou. Precisamos quebrar algumas barreiras culturais, o medo de fragilizar o sistema. Todos são adultos nesse negócio. O médico é o médico, a farmácia é a farmácia. Se conseguirmos juntar os dois mundos quando necessário, é positivo. Talvez eu não queira um médico fisicamente dentro da farmácia, mas a telemedicina, para certos casos, seria sensacional, para resolver problemas imediatos. Na Europa, em cidades como Amsterdã, você fala com o médico online e volta. O paciente diz ao farmacêutico: “Prescreveu o produto tal”, e o farmacêutico faz a dispensação.
Com relação a esse tema, também há uma preocupação com a qualidade do serviço e dos exames. Como garantir que tudo seja prestado em alto nível?
Sérgio Mena Barreto – É, mas a regulação que o Conselho Federal de Medicina fez sobre telemedicina é ótima. O Conselho Federal de Farmácia fez a de teleinterconsulta. É preciso apenas alinhar as duas coisas. Mas muita gente ainda fala em proibição, como na discussão da lei dos supermercados, que queria colocar remédio em todo lugar. Houve debate sobre proibir telemedicina em farmácia.
Quer dizer que posso fazer telemedicina dentro de um banco, mas se fizer dentro da farmácia, estou transformando a farmácia em consultório médico? Não. Posso falar com meu médico em qualquer lugar, mas não posso falar dentro da farmácia, porque seria um pecado. Acho que precisamos avançar. O Brasil tem muito a ganhar com determinados avanços tecnológicos, e essas minúcias sobre o que pode ou não, sobre corporativismo — que, no fundo, é disso que se trata —, precisam ser superadas para o país progredir.
Sobre a pauta do medicamento em supermercados, você pode trazer um pouco de contexto e comentar qual é a sua visão sobre o texto final em discussão?
Sérgio Mena Barreto – Foram 31 anos de discussão. Destes, 30 anos de discussão errada, porque as propostas eram equivocadas. As propostas sempre eram: vamos colocar medicamento em qualquer lugar, de qualquer jeito, perto do refrigerante, perto da picanha e da vodka. Você não tinha acesso ao farmacêutico, não precisava ter licença, não precisava ter nada, e colocava lá dentro..
Se tinha o argumento de que isso funcionava nos Estados Unidos. Bom, com todo respeito aos Estados Unidos, é o país que mais vende remédio no mundo e o país mais doente do mundo. Então não é referência e sim desastre sanitário. Mas vamos fazer do jeito que é em outros locais?
No Brasil é outra coisa. O Brasil tem política nacional de medicamentos, tem o SUS, tem uma estrutura que não existe em outros lugares. A farmácia do Brasil hoje é uma das melhores farmácias do mundo, em qualquer índice que você queira avaliar. É impressionante. Durante 30 anos, essa discussão foi uma discussão meio torta. No último ano, o setor supermercadista viu que a proposta não ia avançar, porque nem o governo, nem a sociedade, nem a saúde aceitavam. Aí veio a proposta atual, que agora passou no Senado: pegar a farmácia completa e colocar dentro do mercado.
Com cara de farmácia, né?
Sérgio Mena Barreto – Com cara de farmácia, segregado, com todo o controle, com farmacêutico e licença. Essa é a regra que o relator Humberto Costa, senador e ex-ministro da Saúde, conseguiu levar a consenso no texto. É uma regra que está ok, porque é um concorrente como qualquer outro. Quando essa discussão evolui para o que o Brasil realmente precisa, ótimo. Estamos dando outra oportunidade, outros espaços para que o consumidor compare preços, escolha seu produto, e está tudo certo. Chegamos a um ponto bom agora. A CNN deu a seguinte manchete: “As farmácias ganharam na discussão com os supermercados.” Não foram as farmácias que ganharam, é o Brasil, a saúde brasileira, que ganhou ao escolher um modelo comparável a uma farmácia.
Do ponto de vista de concorrência, ter farmácias dentro de supermercados representa uma ameaça ou é apenas mais um concorrente no mercado?
Sérgio Mena Barreto – Não, não vemos isso como ameaça. Óbvio, estou olhando pelo meu ponto de vista, da empresa que resolveu os problemas de logística. Sob o ponto de vista da pequena farmácia, se você estiver numa cidade muito pequena e um supermercado de algum porte montar uma farmácia com toda essa estrutura e concentrar as vendas, talvez haja um impacto econômico.
Vamos saber isso ao longo do tempo, se o supermercado terá apetite, porque é um negócio complexo, difícil de administrar, com muitas regras. Não é como colocar 200 quilos de arroz no depósito e trazer para frente quando é preciso. Teremos que esperar para ver se isso vai avançar, se haverá mercado para isso. Sei que um atacarejo está bem animado para fazer, pois estava acompanhando as discussões. Mas é um concorrente como outro qualquer.
Voltando ao tema da farmácia como hub de saúde, você acha que ela poderia atuar como apoio à atenção primária e aos programas governamentais no Brasil? O que precisaria acontecer para isso funcionar?
Sérgio Mena Barreto – Deveríamos avançar urgentemente com isso. Vou dar um exemplo prático. Uma determinada rede fez uma parceria com um grande grupo hospitalar no Brasil, com três objetivos: certificar o profissional, qualificar o farmacêutico em um programa intenso; certificar as salas de serviço das farmácias, garantindo toda a estrutura necessária para desenvolver três protocolos; e começar um piloto interno para funcionários da farmácia e do hospital.
O resultado foi impressionante: eu acompanhei um atendimento de um funcionário. A pessoa chegou com dor de ouvido, o farmacêutico abriu o protocolo, fez a entrevista inicial — “O que você usa? Tem alguma doença de estômago?” — toda a triagem. O sistema indicou pegar o equipamento e examinar os dois ouvidos. A farmacêutica filmou os ouvidos e a garganta. Se o problema não pudesse ser resolvido, chamava-se o médico. Entrou um médico do Rio de Janeiro, falou com a paciente, analisou o exame: não havia líquido no ouvido, nem inflamação; provavelmente a paciente apenas coçou o ouvido.
Então, indicou um remédio para o desconforto e orientou que, daqui a sete dias, ela faria um follow-up. De cada cem atendimentos feitos nessas farmácias nessa fase experimental, em sessenta e seis casos o farmacêutico resolveu sozinho. Vinte chamaram o médico. Quatorze, o sistema disse para mandar para o PA. De cada 100 pacientes, 86 não precisaram ir ao PA. Isso é sensacional. Contudo, o piloto desse projeto foi interrompido porque o Conselho Regional de Medicina entrou com um processo para caçar o registro do médico do hospital responsável. Como ele não podia atacar o sistema, atacou o profissional.
“O Brasil precisa avançar nessas discussões, porque interessa ao sistema como um todo. Não é sobre cooperativismo; o que interessa é discutir o que pode ser usado para evitar que o paciente vá ao PA, usando a farmácia para triagem e para cuidados básicos. A farmácia não é para substituir o médico, mas se atuar em conjunto com o sistema médico, usando a telemedicina e protocolos bem-feitos”.
Eu fui chamado na ONU para falar de um problema de gravidez precoce: 500 mil meninas engravidam precocemente no Brasil até os 14 anos por ano. Isso é um absurdo, relacionado a problemas sociais, desinformação, falta de contraceptivo e orientação. A ONU lançou um programa que existe em muitos locais, também no Brasil, para orientar essas meninas.
Uma menina de 14 ou 16 anos chega numa farmácia e uma farmacêutica pode perguntar: “Você já tem vida sexual ativa? Usa anticonceptivo?” e abrir a conversa para evitar os 500 mil casos. Um programa super legal. O ideal é que o contraceptivo, que já está na farmácia popular possa ser prescrito pela própria farmacêutica. Se não se perde o fluxo. O Jarbas Barbosa, quando era presidente da Anvisa, aprovou no modo expresso o teste de HIV em farmácias. Gerou uma polêmica gigante, mas isso é um avanço. O PrEP também precisava estar na farmácia.
Ao longo do tempo, a adesão ao PrEP foi caindo. É muito difícil para a pessoa conseguir o PrEP: ela precisa ir ao médico, fazer exames, muitas vezes não tem um exame. A jornada é muito acidentada. Imagina se a pessoa chegasse à farmácia e dissesse: “Quero entrar no PrEP.” A farmácia já pode fazer o teste de HIV, já faz sífilis, hepatite, tudo. Faz todos os exames que se fariam em um posto de saúde, aciona a telemedicina, o médico realiza a anamnese com o paciente, e ele já sai com o PrEP da farmácia.
Vimos alguns movimentos, principalmente nos Estados Unidos, de tentar fazer a farmácia ocupar essa posição, e eles não deram certo. Por que isso aconteceu lá e por que funcionaria no Brasil hoje?
Sérgio Mena Barreto – Nos Estados Unidos o viés era da existência de um seguro que custa muito caro, e nem todo mundo consegue ter um seguro de saúde. Então, você tem norte-americanos que estão totalmente descobertos, e a saúde lá é caríssima, absurda. As farmácias, junto com operadoras e clínicas, fizeram um movimento para vender um serviço de 69 ou 89 dólares, algo que fosse uma consulta mais barata e resolvesse o problema do paciente.
Até mesmo a grande rede de supermercados entrou, inaugurou várias clínicas, mas depois fechou porque não houve adesão dos pacientes ou não foi economicamente viável. Ali, essa proposta, para a especificidade dos Estados Unidos, não funcionava. No Brasil, não temos a pretensão de montar uma clínica, até porque não é o nosso negócio. O que queremos mostrar é como a farmácia pode resolver o problema, juntando-se ao médico, integrando-se ao sistema, para atuar como um veículo que ajuda a intervir no momento certo, com o farmacêutico como navegador, acionando o médico e acompanhando depois.
Por exemplo, hoje, quando o paciente não quer fazer a glicemia em casa, ele vai medir na farmácia, e muitas vezes identificamos que ele precisa voltar ao médico porque o diabetes está descontrolado. Tem uma farmacêutica em Belo Horizonte, numa rede Araújo, que tem uma loja ao lado de um posto de gasolina. Ela já identificou muitos pacientes com sífilis e HIV positivos. Ela propõe um exame que um caminhoneiro jamais faria.
O caminhoneiro entra na farmácia para comprar produto para disfunção erétil, camisinha, protetor solar, e ela pergunta: “Você não quer fazer um check-up rápido aqui?” Assim, vários pacientes HIV positivos e com sífilis foram encaminhados para a UBS do lado. O Brasil pode avançar muito se seguir esse caminho, usando todo o sistema. Uma vez, no Future Trends, um ex-diretor da OMSdisse uma frase que uso até hoje: a farmácia e o farmacêutico são os dois elementos mais subutilizados do sistema. Se fossem bem utilizados, mudariam o jogo na saúde.
Pensando em aspectos regulatórios, onde você acha que hoje estão as maiores travas e o que ainda precisa entrar na pauta de discussão?
Sérgio Mena Barreto – É preciso revisar a RDC44, que trata de boas práticas em farmácias, principalmente agora que a Anvisa recompôs os diretores. Essa RDC é de 2009 e já existe uma lei de 2014, então está bem atrasada. Por exemplo, a RDC de vacinas remete à RDC50, que é voltada para estrutura de ambiente hospitalar, e isso gera problemas.
Em algumas cidades, não posso aplicar vacina porque a RDC50 exige uma sala médica exclusiva, que eu não tenho; uso uma sala multiuso de serviços, mas lá não há uma linha específica sobre farmácia. Portanto, a RDC44 precisa ser revista para permitir autonomia, uso de sala multiuso com barreira técnica adequada e todos os requisitos necessários. Se resolvermos a questão da RDC44, já eliminaremos uma trava importante para vacinas e serviços em muitos lugares onde ainda enfrentamos limitações.
Vimos recentemente a compra de uma farmácia pelo Mercado Livre, e o mercado entrou em ebulição. O que isso significa para a dinâmica do varejo farmacêutico?
Sérgio Mena Barreto – Olha, não tenho nenhum medo. Acho que houve um certo pânico. No nosso caso, a Abrafarma tem 11.500 mini-CDs. Cada farmácia é um mini-CD. Eu entrego direto da farmácia. O meu desafio é ser muito mais eficiente. Em São Paulo, em alguns bairros, se você está a 10 quarteirões de uma loja, chega a receber um produto em seis minutos.
Duvido que uma plataforma tenha essa agilidade para um produto de uso imediato. Não é desdenhar, não é minimizar. Não dá para negar o poder da venda online. Mas eles vão ter que ser tão eficientes quanto nós. E nós, todos os dias, buscamos mais eficiência: reduzir o tempo de entrega, ser ágeis, não ter ruptura, atender o cliente do jeito que ele quer, no “clique e retire”. Eu nunca pensei que isso pegaria no Brasil. No exterior, o cliente compra online e retira na loja. As pessoas gostam, porque podem ver outros produtos. Isso não é possível no marketplace. Vai ser uma dinâmica nova? Vai. Mas acho que continuaremos investindo no nosso negócio, tornando-o cada vez mais eficiente, e eles que se adaptem.
Me traz um pouco do contexto sobre o perfil do consumidor de farmácias.
Sérgio Mena Barreto – Não dá para ter um perfil único, mas cerca de 70% das vendas são de medicamentos, principalmente de uso contínuo e MIP. Cerca de 70 e poucos por cento das pessoas que vão à farmácia são mulheres. Além dos medicamentos e suplementos, há uma gama de outros produtos que oferecemos, mas, curiosamente, 80% do espaço de vendas é ocupado por apenas 30% dos produtos. Nesse conceito de one-stop-shop, a cliente entra na farmácia, que fica embaixo de uma torre empresarial, e resolve tudo de uma vez: comprou uma maquiagem que precisava, uma vitamina, um analgésico para dor de cabeça, e ainda pode pegar um cereal para o café da manhã.
Resolveu tudo ali, sobe, se arruma e vai trabalhar. Estamos indo para a Coreia do Sul para conhecer os produtos de dermocosmética e beleza, que são incríveis e ainda pouco explorados nas farmácias brasileiras. Em 2004, esse tipo de “paredão” de dermocosméticos praticamente não existia no Brasil. Numa viagem à Espanha e França, vimos como era feito lá, e então trouxemos o conceito para cá. Agora, queremos mostrar para nossa equipe o potencial do que ainda podemos explorar. Talvez surja uma nova geração de farmácias com essa camada de produtos.
Nos Estados Unidos, quando você entra em uma CVS ou uma Walgreens, eles têm a parte de farmácia, a parte de cosméticos, e a parte de supermercado é muito maior do que a que temos aqui. Por que isso, talvez, não decolou no Brasil?
Sérgio Mena Barreto – Em Belo Horizonte, a rede Araújo tem uma operação grande. Eu acredito no negócio vertical, no negócio puro de saúde. Se compararmos com os modelos americanos, como Walgreens e CVS, a Walgreens vendia até cigarro, enquanto a CVS parou de vender produtos que não combinavam com saúde e focou na verticalização.
O resultado é que a CVS venceu; a Walgreens acabou sendo vendida e perdeu relevância. Portanto, acredito em um negócio de saúde, higiene e beleza, com um pouco de conveniência e de conceito one-stop-shop ao redor disso. Não acredito em exageros de conveniência ou em expandir para áreas que não têm relação com saúde. Mesmo que as leis estaduais fossem mais abertas, provavelmente não se expandiria muito além do que já temos hoje. A farmácia, no fim das contas, entrega soluções que o cliente precisa — às vezes um achocolatado ou algo de última hora — mas, de modo geral, o foco é saúde, higiene, beleza e bem-estar. Isso é o negócio.
Recentemente, tivemos o anúncio do projeto-piloto do Inova HC, que envolve operadora, hospital e farmácia. A RD entrou como a farmácia responsável por interoperar os dados nesse projeto. Como você enxerga isso?
Sérgio Mena Barreto – Vejo como um apoio total. Incentivamos o nosso pessoal a entrar na RNDS, na Rede Nacional de Dados em Saúde. Esse mundo de serviço é um mundo que estamos aprendendo. Nós somos do varejo, não do serviço tradicional de saúde. Quando começamos a instalar as salas, algumas pessoas falaram: “Ah, mas tem que fazer o Cadastro Nacional de Estabelecimento de Saúde”. Claro que tem, né?
Quanto mais a gente se integrar, melhor. Eu acho muito bacana abrir hoje o meu aplicativo do SUS e ver lá as vacinas que tomei na RD, numa farmácia, ou um exame que fiz; isso precisa fazer cada vez mais parte da vida dos brasileiros. Houve muita discussão sobre exames de farmácia, especialmente na pandemia: “O exame de farmácia não presta. Existe o padrão ouro e o não padrão ouro.” Isso é uma lenda de mercado. O exame da farmácia era o mesmo feito em qualquer laboratório.
E a farmácia salvou o Brasil durante a pandemia. Fizemos 21 milhões de exames. Um estudo que vai ser publicado em uma revista internacional analisou um milhão de anamneses, de atendimentos em farmácias para descobrir o principal sintoma da Covid. O primeiro sintoma era dor de cabeça muito forte, o segundo, dor de garganta intensa, e o terceiro, congestão. Descobrimos também que 10% das pessoas chegaram graves à farmácia e foram encaminhadas para o PA.
O desfecho da pandemia poderia ter sido totalmente diferente. Não seriam 700 mil mortos, poderiam ter sido 3 milhões se a farmácia não tivesse encaminhado esses 10% dos pacientes. A farmácia salvou o Brasil. Precisamos aprender com isso, em como usar melhor os equipamentos de saúde, como aproveitar melhor os profissionais disponíveis. E a farmácia é um desses recursos fundamentais.
Eu lembro muito bem da época da Covid, da procura por testes.
Sérgio Mena Barreto – Eu usei muito uma figura de linguagem: a gente via o tsunami chegar. Era como se eu estivesse na praia com um binóculo, vendo a água sumir, porque começávamos a perceber o aumento da procura, o aumento dos sintomas das pessoas doentes. E nós não fechamos um dia sequer. Logo que começou a pandemia, a Itália já havia fechado.
Lá, as farmácias fecharam porque as pessoas adoeciam, os donos de farmácia também ficavam doentes, e muita gente começou a morrer. Aqui, decidimos: nós não vamos fechar nada, mas vamos criar todos os protocolos possíveis. E não perdemos profissionais. Foi um sucesso. Nós éramos a primeira onda; o primeiro local que a pessoa procurava era a farmácia, até porque o PA estava cheio. Isso representou um aprendizado enorme para o profissional farmacêutico. Havíamos feito treinamentos, montado as salas, criado protocolos, mas a pandemia mostrou na prática o valor desses estabelecimentos para a população.
Você já esteve na China algumas vezes. Quais insights você traz de lá para o setor de varejo farmacêutico?
Sérgio Mena Barreto – Toda vez que eu vou à China, volto muito impressionado. A primeira coisa é a capacidade que eles têm de planejar a longo prazo. Isso é estruturante: o governo planeja para 30 anos, quebrando em ciclos de cinco, e as empresas acabam seguindo esse ritmo. É muito impressionante. Tudo é integrado: sistema de pagamento, reconhecimento facial.
Na última vez, visitei uma empresa que criou um sistema de reconhecimento facial na China: são 300 milhões de câmeras. Para uma população de 1,5 bilhão, é algo impressionante. Tudo funciona de forma muito fluida. Fui andar de bicicleta compartilhada: não precisei baixar nenhum aplicativo novo, já estava tudo integrado ao sistema de pagamento que eu já usava. É um exemplo de integração que podemos aprender bastante. Quanto à IA, acho que ela libera a atividade das pessoas.
Não devemos ter medo; precisamos usar bem, com ética, e aproveitar seu potencial. Na minha próxima viagem, em algumas semanas, vou observar a robotização. Fiquei impressionado com isso. Aqui no Brasil, na Abrafarma, temos 50 centros de distribuição e cerca de 25 mil pessoas na operação. Cada processo é manual: acender uma luz, pegar uma caixinha, colocá-la na esteira, apertar um botão…
Na China, isso já é feito por humanoides que, em dois ou três anos, custarão cerca de 6 mil dólares e ainda se recarregam sozinhos. Eles executam tarefas repetitivas, liberando o humano para outras funções. Essa redução de fricção é algo único, que não existe em nenhum outro lugar. E digo para todo mundo: vá à China, você não volta a ser a mesma pessoa. É muito impressionante. Meu sonho é trazer essas soluções para o Brasil. No ano que vem, levarei a Abrafarma novamente para a China, porque cada visita é uma oportunidade de aprendizado.
Queria que você falasse sobre tendências. O que podemos esperar para o futuro próximo?
Sérgio Mena Barreto – De produtos, estamos de olho nessa nova de geração K, milênio e dessa preocupação com beleza, com essa nova onda de produtos coreanos. É algo que se pode ver em breve. Existe uma série de produtos, devices de autoteste, que precisam avançar mais no Brasil. Nos Estados Unidos, há um produto que testa se a mulher entrou na menopausa a partir de cinco medidas, para ser feito em casa. Para trazer essas novidades ao Brasil, é preciso avançar no entendimento de hub, melhorar a regulação para que o farmacêutico esteja mais livre para acompanhar o paciente.
Essa frente deve ser uma tendência para o futuro, o Pharmacy First no Brasil. Vai chegar num ponto que vai ser impossível ignorar que se podia ter protocolo simples na farmácia. Também vamos investir cerca de um bilhão de reais em IA, para ter um sistema de abastecimento mais eficiente. Hoje eu preciso de pessoas em áreas de compras enormes, selecionando o que não pode faltar, fazendo análise de categoria. De novo, a IA vai liberar s pessoas para serem mais criativas.
“Não acredito em robotização de loja, mas acredito em robotização de retaguarda, no uso da tecnologia para o bem. E, obviamente, a farmácia como realmente uma parte importante integrada ao sistema de saúde, para ajudar o paciente a viver mais e com mais qualidade de vida”.
Na última SXSW assisti a uma palestra que foi chocante, com um pesquisador que disse: “Olha, o bebê que vai viver mais de 800 anos já nasceu.” Depois, ele continua: “Qual é o papel de você estar aqui nessa sala? Ficar vivo até 2035. Se você não morrer de acidente e continuar vivo, vai viver mais de 100 anos, 720, 730, porque a ciência vai encontrar soluções.” Existem umas 500 moléculas sendo estudadas para combater câncer de todos os tipos. E cada vez mais você vai usar nanorrobótica e uma série de tecnologias que vão auxiliar nesse processo. O seu papel é como viver bem, e o desafio global é como as pessoas vão ter renda e conseguir uma segunda ou terceira carreira no mundo da robotização. O papel da farmácia é ajudar as pessoas a chegarem aos 130.
Para encerrar, qual pauta devemos acompanhar no Futuro da Saúde?
Sérgio Mena Barreto – Todo esforço tem que ser empreendido para transformar esse setor de saúde em um setor mais conectado, menos fragmentado — com prontuário único, integração de dados, de papéis, sem barreiras. Quando entrei nesse setor, há 36 anos, montamos na Pague Menos um negócio chamado SAC Pharma, que existe até hoje. Era um 0800 que não vendia remédio; o objetivo era treinar farmacêuticos. Eu tinha um sistema 24 horas, com professores da universidade. Estagiários do SAC atendiam a demanda da população, incluindo profissionais de saúde. Esse profissional, de tanto atender, consultar bases científicas e interagir, quando ia para a farmácia, já chegava preparado.
Lembro da crítica que recebi, há muitos anos: “colocar um profissional no telefone para tirar dúvida de paciente é absurdo”. Gente, esse é o nosso papel. Outra vez, no Future Trends, trouxe um profissional que disse: “O pessoal busca no Google, pega informação errada, se automedica de forma equivocada e acha que está doente, porque o sistema de saúde não deu a resposta.” Nós não assumimos o protagonismo. Temos que avançar nessas pautas de integração, consolidação de dados, melhorar o papel de cada um e colocar todo mundo na mesma jornada, para melhorar a vida do paciente.
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