Furtos de canetas emagrecedoras causam perdas de até R$ 280 mi e mudam rotina de farmácias
07 de abril de 2026Redes adotam chips de rastreamento, restringem a exposição de medicamentos e mudam logística para conter ação do crime organizado.
FÁTIMA FERNANDES
A escalada de furtos de canetas emagrecedoras está levando redes de farmácias a adotar práticas incomuns de segurança, como o uso de chips de rastreamento em embalagens e trancas com senha em geladeiras.
Desde a liberação para venda no Brasil, em 2025, medicamentos como Wegovy, Ozempic, Saxenda e Mounjaro — usados no tratamento de obesidade e diabetes — passaram a ser alvo frequente de criminosos, com episódios de violência, incluindo casos fatais. Com preços que variam, em média, de R$ 1.300 a R$ 2.000 por unidade, esses produtos também vêm alimentando um mercado paralelo que tem surpreendido o próprio setor.
No estado de São Paulo, foram registrados 4.800 furtos e roubos de canetas em 2025, o equivalente a 400 casos por mês, de acordo com dados de representantes das redes. Essas ocorrências resultaram em prejuízo de cerca de R$ 192 milhões para as farmácias. Em todo o país, os números chegam a 7.200 ocorrências — cerca de 600 por mês — e os prejuízos das drogarias atingiram R$ 288 milhões no ano passado.
Reação das redes
Diante desse cenário, redes como RD Saúde (dona de Drogasil e Droga Raia), Grupo DPSP e Pague Menos passaram a debater de forma conjunta ações para conter os furtos.
Entre as medidas discutidas estão reuniões com secretarias estaduais de Segurança Pública e mudanças nos estabelecimentos e na logística de distribuição dos produtos. Lojas localizadas em shoppings, consideradas ainda mais seguras, passaram a concentrar estoques e a funcionar como centros de distribuição para outras unidades.
Em alguns casos, os produtos deixaram de ficar disponíveis nas prateleiras. O cliente faz a compra, e a farmácia se encarrega da entrega, sem custo adicional.
Outra medida adotada pelas redes envolve o uso de embalagens vazias com chips de rastreamento, usados como isca para identificar os locais que concentram os medicamentos.
Como os furtos ocorrem de forma rápida, os criminosos, de acordo com representantes das farmácias, não conseguem distinguir quais caixas contêm de fato os medicamentos. Além disso, geladeiras nas quais as canetas emagrecedoras são armazenadas passaram a ter acesso restrito, com abertura apenas por senha.
O controle de estoque nas lojas também foi intensificado, com conferências diárias para detectar possíveis desvios internos. As redes também reforçaram a segurança no transporte, realizado pelas próprias empresas. De acordo com representantes do setor, cerca de 95% dos furtos abastecem o mercado paralelo, estimado em aproximadamente R$ 240 milhões por ano.
Sérgio Mena Barreto, presidente da Abrafarma, associação das farmácias, diz que já discutiu o assunto neste ano com representantes da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo.
“A ideia é que a Polícia utilize mais inteligência nessa área. O que está acontecendo no caso das canetas não é apenas um furto eventual, é encomenda do crime organizado”, afirma.
Como no caso dos furtos de celulares, diz ele, há um receptador, que distribui os medicamentos.
“O desafio é controlar o receptador, localizar onde as canetas emagrecedoras estão sendo vendidas. É caso de inteligência da Polícia.”
A Abrafarma criou um grupo de trabalho para monitorar e enviar dados sobre os furtos e roubos à polícia para ajudar com as investigações. De acordo com Mena Barreto, cada rede de farmácia tem seu método para coibir os furtos.
“Esse caso das canetas virou um problema de segurança e de saúde. Ninguém sabe como elas são armazenadas. Esperamos que a polícia consiga desmantelar essas quadrilhas”, diz.
Na semana passada, a Polícia Militar de São Paulo conseguiu frustrar um assalto a uma farmácia no bairro do Campo Belo, na Zona Sul da cidade. Pouco antes da meia-noite, três criminosos entraram armados no estabelecimento para roubar os medicamentos no valor de aproximadamente R$ 80 mil.
Os funcionários foram forçados a pegar os medicamentos. Mas, para surpresa dos criminosos, policiais chegaram a tempo de evitar o roubo. Também na Zona Sul de São Paulo, no bairro do Campo Limpo, houve troca de tiros entre policiais militares e uma dupla suspeita de roubar as canetas. Um deles morreu e o outro foi preso.
Os produtos roubados, diz Mena Barreto, estão sendo vendidos em marketplaces, assim como os falsificados, um mercado também em expansão. “Se o dono de uma farmácia vender um produto falsificado, ele vai preso. Os marketplaces estão vendendo e nada acontece. Precisamos evitar essa situação no Brasil”, diz.
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