Lojas de rua reforçam segurança e retomam investimento após anos de crise
30 de janeiro de 2026Redes lançam planos de expansão específicos para essas áreas em grandes metrópoles.
Por Adriana Mattos — De São Paulo
As últimas crises no varejo, nos anos de 2015 e 2020, levaram as redes a investir mais em tecnologia para reduzir perdas com furtos e roubos. Isso tornou as lojas de rua mais competitivas do que no passado, especialmente com a consolidação, seis anos após a pandemia, de um estilo de vida e de consumo ao ar livre.
O fortalecimento das pequenas marcas locais nos últimos anos, principalmente de roupas e calçados, que ganharam força nas redes sociais, também ajudou a impulsionar esse comércio de rua. É o oposto do cenário que se verificava na década passada, quando os grandes shopping centers reinavam absolutos, após o “boom” de aberturas em 2012, e os pontos em ruas e avenidas em grandes metrópoles ficaram mais em segundo plano.
Consultores e fornecedores de serviços de tecnologia ouvidos identificaram um aumento nos investimentos em segurança nos últimos anos nesses pontos, e varejistas já lançaram planos de inauguração de lojas específicas para as ruas a partir de 2026. É um movimento que se cruza com melhora na intenção de compra nas ruas e avenidas das cidades em 2025, segundo levantamento enviado ao Valor pela Seed Digital, empresa de tecnologia que monitora o varejo.
“Quando o comércio vai bem, se olha muito pouco para perdas com roubos ou furtos nas lojas, ninguém tem muita preocupação com isso. Mas, como os últimos anos foram duros, pelos juros altos e maior endividamento, a atenção a isso cresceu, e se olhou mais para investimento em tecnologia para segurança do varejo físico e melhoria de resultados das lojas de rua”, disse Rafael Bernardini, CEO da Sekron Digital, empresa de segurança e monitoramento corporativo, que tem como clientes GPA, Carrefour, Dia, entre outros.
Nesse contexto, diz ele, não há mais grandes diferenças hoje nas características dos projetos voltados para segurança em lojas de rua e shoppings. “É mito isso [de que loja de rua tem um esquema de segurança muito maior que de um shopping], até porque segurança hoje não é o fator decisivo sobre onde abrir uma loja, mas o custo de abertura. E a loja de rua cresce nos momentos em que as negociações em shoppings ficam difíceis pelo alto custo do shopping”, diz. “Fazendo a lição de casa em termos de segurança, o ponto de rua é perfeitamente administrável”, afirma o executivo.
Esse tema voltou a ser debatido no mercado depois que grandes varejistas de capital aberto anunciaram, no fim do ano passado, aberturas de lojas em ruas e avenidas de capitais, e planos mais agressivos nessas áreas, mesmo num cenário de investimentos mais comedidos por conta do alto custo do capital com Selic a 15% ao ano.
O Magazine Luiza, com pontos em ruas e shoppings, planeja abrir 50 novas lojas tendo como referência a unidade da Galeria Magalu, inaugurada em dezembro na Avenida Paulista, em São Paulo, onde antes era a Livraria Cultura. Cidades como Rio de Janeiro e Brasília devem ser as próximas a ter uma galeria do grupo, como disse Frederico Trajano, CEO da rede, em entrevista ao Valor em janeiro.
Ainda no segundo semestre do ano passado, a Vivara, rede de joalheiras com operação focada em shopping centers, começou a desenhar um plano para expansão da sua rede Life com lojas voltadas para ruas, apurou o Valor.
No planejamento da empresa, está a possibilidade de abrir 80 unidades da Life no país, sendo que já são cerca de 200 pontos hoje, e parte delas seria de lojas de rua em bairros de classes de maior renda, com custo de ocupação menor do que shoppings, e que ainda atingiriam o perfil de clientes da varejista.
A ideia é que a loja antecipe diretrizes que devemos ‘exportar’ a outras unidades e para revitalização da marca”
— André Farber
Dados do balanço do terceiro trimestre de 2025 mostram que, enquanto as lojas da Vivara cresceram 15,3% ante 2024, as unidades da Life se expandiram em 21,3%.
A rede de cafeterias Starbucks projeta 30 aberturas de unidades em 2026 no país (cerca de 25% das 112 lojas em operação), sendo que em dezembro foram abertas duas unidades, no Aeroporto Internacional de Curitiba e numa das esquinas da rua Pedroso de Morais, no bairro de Pinheiros, em São Paulo. Parte das 30 unidades será de lojas de rua, dentro da ideia de estar mais próximo do cliente no dia a dia do consumidor - atualmente, 37,3% das lojas da empresa já são nas ruas e avenidas, escritórios e universidades, segundo balanço da controladora Zamp do terceiro trimestre de 2025. No fim de 2024, era uma taxa menor, com 36% das lojas nesses locais.
Nas ruas, especificamente, essa taxa passou de 18,4% no fim de 2024 para 19,1% em 2025. Segundo a empresa, a nova loja de rua em Pinheiros, um dos bairros que mais cresce na capital paulista em termos de novos modelos de varejo, a rede testa um novo projeto, a “Community Coffee House”, espécie de cafeteria comunitária, com mezanino amplo e balcões.
Na mesma região, a rede de moda Riachuelo acaba de abrir, em dezembro, uma loja temporária na rua dos Pinheiros, no bairro de mesmo nome, que deve funcionar um ano, com coleção de moda exposta com uma curadoria específica para aquele ponto, com 240 metros quadrados.
Trata-se de uma unidade completamente diferente dos pontos de shopping center, em termos de layout, iluminação, materiais e disposição de peças, e a empresa escolheu a rua para esse projeto para ampliar a exposição e percepção da marca num momento de renovação da rede.
“A ideia é que a loja antecipe diretrizes que devemos ‘ exportar’ para nossas outras unidades a partir deste ano, e para a revitalização de nossa marca Riachuelo, que tem passado por um reposicionamento no varejo”, disse ao Valor, na inauguração da loja, o CEO da rede, André Farber.
Pesquisa da Seed Digital sobre índice de intenção de compra de consumidores em ruas e shoppings do país, finalizada neste mês, mostra que, enquanto a primeira fechou o ano passando com intenção levemente em alta de 0,2%, nos shoppings houve pequena queda de 0,8%.
“Esse resultado reflete comportamentos distintos ao longo do ano”, diz o relatório da empresa. O varejo de rua teve pressão negativa nos trimestres que concentram as principais datas do calendário comercial, mas conseguiu preservar algum nível de equilíbrio no fechamento anual. Já as lojas de shopping registraram queda em três dos quatro trimestres (veja tabela acima).
“Outro fator que contribuiu para esse desempenho foi a configuração do calendário em 2025”, diz o levantamento. Acontece que a concentração de feriados em finais de semana resultou em um ano com mais dias úteis em comparação a 2024, o que nunca ajuda muito esses empreendimentos, que atraem mais público hoje, do que no passado, com as opções de lazer e gastronomia.
A Seed capta informações de 58 milhões de consumidores que, mensalmente, fazem suas compras em seis mil lojas em 400 cidades, em shoppings ou unidades de rua. Isso é feito por meio de câmeras sensoriais nos locais, que analisam o comportamento dos clientes e geram cerca de 30 indicadores para os varejistas.
O presidente da Associação Brasileira de Prevenção de Perdas (Abrappe), Carlos Eduardo Santos, entende que os shoppings atraem clientes porque têm “camadas de segurança”, com um espaço mais vigiado, e logo, há um menor risco de segurança para o varejista. Mas com a queda no custo das novas tecnologias, e massificação no uso de equipamentos e softwares, “há lojas de shopping com risco semelhante ou igual ao de lojas de rua em determinadas áreas das grandes metrópoles”, disse ele.
“Lojas muito perto de metrôs com fluxo contínuo de clientes, ou seja, com muita entrada e saída de pessoas, e localizadas dentro de shoppings, têm risco mais elevado do que determinadas lojas de rua”, afirma ele. “Então, hoje, ao se analisar o ponto, a questão é bem mais complexa do que olhar só se está ou não na rua ou em algum shopping”, afirma.
De acordo com o executivo Mathieu Le Roux, CEO da Veesion no Brasil, grupo francês que fornece software de segurança para varejistas, 60% dos furtos no país são de clientes regulares da loja, ou seja, tratam-se de ações que podem ser inibidas com investimento. De acordo com a Pesquisa Anual de Comércio (PAC), do IBGE, existem no país 1,5 milhão de empresas comerciais, e com receita operacional líquida de R$ 7,1 trilhões em 2023, último ano do estudo.
Trata-se de um país com o varejo extremamente pulverizado por pequenas e médias cidades brasileiras. Para se ter ideia dos números, a associação do setor de shoppings (Abrasce) contabiliza 648 empreendimentos e pouco menos de 124 mil lojas nesses locais, dentro do volume total de 1,5 milhão de estabelecimentos comerciais no país.
A escolha entre um ponto comercial de rua e em shopping center depende da capacidade financeira, do público-alvo e da natureza do negócio. Em moda, por exemplo, Bernardini, da Sekron Digital, diz que esse foi um setor sem grandes volumes de investimento em novas tecnologias de segurança por vários anos.
“Mas eles se organizaram melhor, ampliaram a área de perdas e compliance de quatro a cinco anos para cá, principalmente, e usando melhor os seus próprios dados para isso. E foi algo que trouxe mais condições para eles abrirem mais lojas de rua”, diz.
Levantamento realizado em 2022 pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), com 800 pessoas (índice de confiança de 95%) - a última realizada pela entidade - mostrou que as lojas de rua são o local onde os brasileiros preferem fazer compras, sendo o escolhido por 57% dos entrevistados, sobretudo nas classes C, D e E (59%).
Os shoppings são citados por 14,6%, e com maior preferência nas classes A e B (30,5%). Sobre a questão de segurança, um terço dos entrevistados cita a insegurança nas ruas como impeditivo para compras, e os outros dois terços (66%) citam outros fatores, como dificuldade para estacionar, horário de funcionamento e trânsito no local.
Quando o critério é melhor preço, as lojas de ruas têm preferência (81,3%, ante 8,5% dos shoppings). Na rapidez das compras, as lojas de rua também se destacaram (69,1%, ante 20,4% dos shoppings). Mas para 53,6%, a compra é mais prazerosa nos shoppings, frente aos 33,9% que escolheram as lojas de rua. A pesquisa da CNDL teve o apoio do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), em parceria com o Sebrae.
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