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Maiores do varejo vendem R$ 1,3 trilhão, mas saldo de lojas encolhe

26 de agosto de 2026
Fonte: Jornal Valor Econômico– SP

Em termos reais, a expansão em 2025 foi a menor desde 2021; regionais avançam.

 

Por Adriana Mattos  — De São Paulo

 

Num período em que grandes grupos de varejo amargam renegociações de dívidas em série, novos números mostram o avanço da desaceleração no setor. As companhia que fazem parte do ranking das 300 maiores empresas do comércio nacional somaram R$ 1,3 trilhão em vendas em 2025 e, entre as 227 redes comparáveis para os dois últimos anos (presentes no levantamento de 2024 e 2025), a alta foi de 8,6%, para R$ 1,1 trilhão - o dobro da inflação medida pelo IPCA do IBGE (4,26%).

 

A expansão nominal de 8,6%, entretanto, é a menor variação anual desde 2018, quando a alta alcançou 7,9%. Além disso, o saldo líquido de lojas no Brasil (entre aberturas e fechamentos de unidades) em 2025 foi o menor desde 2020. Em termos reais, em valores deflacionados, a expansão é de 4,3% nas vendas, mais do que o dobro do índice da pesquisa do varejo nacional medido pelo IBGE. Porém, é o menor ritmo de crescimento desde o ano de 2021, período de pandemia.

 

Os dados fazem parte do levantamento “Top 300 do Varejo Brasileiro 2026”, elaborado pelo Instituto Retail Think Tank (IRTT) e publicado há dez anos pelo Valor em parceria com os fundadores da instituição, Alberto Serrentino, Eduardo Terra e Helio Biagi.

 

Além disso, o levantamento mostra que, no ano passado, 282 redes com dados comparáveis entre os dois últimos anos registraram um superávit final, considerando encerramentos e inaugurações, de 2.474 lojas. Trata-se do menor saldo dos últimos cinco anos. Em 2020, o comércio fechou as lojas por conta do isolamento causado pela covid-19, e foi atingido o nível mais baixo do estudo, com 163 pontos de saldo positivo.

 

“Não vemos uma crise no setor, mas uma desaceleração da atividade, o varejo sofre os reflexos da economia brasileira, não há como desconectar. Há fatores conjunturais da crescente dívida pública, dos juros altos, e os fatores adicionais, da expansão das ‘bets’ e do corte de despesas essenciais para gastos em jogos”, diz Serrentino.

 

“Quem destoa da média e consegue ir melhor tem baixa alavancagem com sólida estrutura de capital, e disciplina de execução dos projetos para manter determinados investimentos mesmo em cenário de incerteza”, afirma.

 

Os números ainda apontam para a força do regionalismo no setor, com expansão mais acelerada de redes que ocupam posições intermediárias no ranking - que historicamente crescem com baixa alavacagem e capital próprio em tempos de juros altos.

Ao mesmo tempo, o conjunto de companhias que faz parte do “top 5” do comércio quase não teve variação no peso total do faturamento do comércio geral em cinco anos. Esse grupo espondeu por 13,3% do total das vendas em 2025 versus 13,1% em 2020 - em 2024, ficou em 13,5%, ou seja, teve inclusive uma leve redução na participação no último ano.

 

Nessa lista estão, nesta ordem, Grupo Carrefour, Assaí, RD Saúde (Raia Drogasil), Magazine Luiza e Grupo Boticário. Mas as 50 maiores, que incluem regionais fortes, passou em cinco anos de 33,5% para 35,7%. E ao considerar as 100 maiores, o índice subiu de 39,7% para 42,4%. Paralelo a esse movimento, o percentual de cadeias com lojas espalhadas em um a cinco Estados passou de 63,1% para 67,4% desde 2020. E mais empresas saíram de um Estado e passaram a ocupar de dois a três Estados - esse número cresceu de 37 para 41 redes.

 

Temos um cenário externo e doméstico mais complicado neste ano do que em 2025” — Eduardo Terra.

 

Somado a isso, mais grupos tentaram ocupar todo o mapa geográfico brasileiro, num esforço de aumento de volume de vendas que melhora o poder de negociação junto à indústrias e torna as empresas mais competitivas. Em 2025, 41 redes passaram a estar presentes nos 27 Estados, versus 38 varejistas no ano anterior.

 

“O Brasil é um mercado que tem como uma de suas fortalezas o varejo regional e de controle familiar. A concentração em nosso setor continua em patamares baixos e muito inferiores aos de outros mercados de maturidade similar ou superior”, diz Terra.

 

O nível de concentração das 10 maiores varejistas brasileiras no país ficou em 19% em 2025, enquanto no México é de 57%, nos EUA, 53%, e na Alemanha, 82%, segundo estudo do IRTT, o que mostra a alta pulverização das vendas e espaço ainda existente para crescimento das cadeias.

 

Entre cadeias regionais que entraram em novas regiões no último ano, segundo pesquisa do Valor, está a Lojas G, rede varejista de utilidades para casa do Paraná, fundada em 1996 na cidade de Maringá, e com 70 pontos no país. A rede investiu R$ 20 milhões para abrir a sua primeira unidade no Espírito Santo (oitavo Estado de atuação) no fim de 2025. No curto prazo, o plano é abrir 10 unidades na região e desembolsar R$ 200 milhões, segundo última projeção anunciada pela direção.

 

Outra rede regional, o Grupo Amma abriu a primeira unidade da sua rede Amma Atacadista no ano passado. Controlado pela família Zat, de Concórdia (SC), o negócio surgiu há 40 anos como uma varejista de supermercados com a marca Super Zat, e cresceu com baixa alavancagem e investimentos com capital próprio. Na segunda metade deste ano, deve entrar no Estado do Paraná com a primeira unidade de atacado.

 

“Eles já abriam três atacados desde o ano passado e planejam cinco lojas até 2027, mas de forma controlada, gastando pouco mais de R$ 20 milhões a R$ 25 milhões por loja. Representam bem a cabeça do negócio regional, focado em crescer de forma planejada e sem arroubos”, diz um ex-executivo e atual consultor do varejo paranaense.

 

A empresa líder em venda por loja no Brasil é o Andorinha Hipercenter, que, em uma única unidade, na zona norte de São Paulo, alcançou R$ 982 milhões em 2025.

 

O levantamento mostra que apenas 25 redes contam com mais de mil lojas no Brasil, um país de dimensões continentais, mas com limitações de acesso a capital às redes. “A explicação para essa quantidade modesta [de 25 redes] está no histórico de desenvolvimento das empresas, com acesso restrito ao mercado de capitais até que ganhem musculatura”, afirma Serrentino. “Há apenas 41 empresas de capital aberto entre as 300 maiores e o franchising acaba sendo modelo para viabilizar a expansão das redes”, afirma ele.

 

Para Terra, esse ambiente do ano passado ainda não reflete totalmente, no entanto, as dificuldades que as empresas têm enfrentado no mercado de consumo especificamente nos últimos meses, com a piora no nível de endividamento das famílias e da inadimplência.

 

“Temos um cenário externo e doméstico mais complicado neste ano do que em 2025, com um grau de incerteza maior, por conta da instabilidade do dólar e do petróleo e ainda pela alta da inflação, seguindo depois certo arrefecimento, e toda essa flutuação gera muita insegurança nos planos de negócios das companhias. Vamos ver os efeitos desses cenários no próximo levantamento anual”, diz ele.

 

No grupo das bilionárias do varejo, em 2020, eram 138 cadeias com mais de R$ 1 bilhão de vendas anuais e, no ano passado, 206 redes.

 

Na evolução da década, porém, se tem uma ideia melhor do avanço dessa riqueza. Aquelas com receita superior a R$ 1 bilhão ao ano pularam de 109 para 206, e acima de R$ 10 bilhões, o salto foi de 250%: passaram de 8 para 28. No levantamento, 79 varejistas declararam contar com projetos de inteligência artificial (IA) em andamento - foi a primeira vez que a informação foi verificada no estudo. E 35 grupos afirmam já desenvolver iniciativas de vendas que utilizam agentes de IA.

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