Nova pandemia é inevitável e temos que estar preparados, afirma Fauci
25 de abril de 2022Infectologista americana afirma não acredita em erradicação da covid-19.
Por Marsílea Gombata — De São Paulo
O mundo não conseguirá eliminar a covid-19 e temos de nos preparar para futuras pandemias, afirmou o infectologista americano Anthony Fauci. Em evento promovido pela Fiocruz e pelo Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (Niad, na sigla em inglês), dos Estados Unidos, Fauci disse ontem que os números de casos e óbitos de covid-19 podem ser o dobro do que o registrado e defendeu as vacinas como o melhor custo-benefício para evitar casos mais graves e o retorno de doenças que já haviam sido eliminadas.
Segundo Fauci, que é diretor do Niad e o principal assessor médico para o presidente americano desde 2021, o mundo passa por uma fase de desaceleração de novos casos, especialmente de janeiro para cá.
Os próximos passos seriam controlar, eliminar e erradicar a doença. Mas isso não ocorrerá com a covid-19, disse. “Vamos conseguir eliminá-la? Não creio que isso seja possível. Só fizemos isso com o sarampo [nos EUA] porque não havia um hospedeiro animal, houve vacina aceita por todos, e a imunidade durou uma geração”, afirmou. “Eliminamos poliomielite e sarampo nos EUA. Mas não no mundo, pois isso seria erradicação.”
O problema, ele ressaltou, é que não há aceitação bem-sucedida da vacinação contra a covid-19. Este seria o primeiro passo para se chegar ao controle da doença, disse. “Temos de levar [o número] de infecções ao nível mais baixo. Convivemos com vários tipos [de infecção] assim”, ressaltou, ao alertar sobre a inevitabilidade de uma pandemia acontecer novamente.
O infectologista lembrou que em março de 2020, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou pandemia, havia 120 mil casos em mais de 110 países e pouco menos de 5 mil mortes por coronavírus. Hoje o mundo contabiliza mais de 505 milhões de casos e 6,2 milhões de mortes. Esses números, contudo, podem ser bem maiores.
“[Essas cifras] são subnotificação dos números verdadeiros, uma vez que em muitos países a contagem não é precisa. [O que vemos] pode ser a metade do número real”, afirmou. Fauci reforçou a importância da vacinação contra a covid-19 e disse que a eficácia da primeira dose de reforço cai com o tempo. “A segunda dose de reforço da covid-19 pode restaurar a eficácia”, ressaltou.
Ele citou estudos que mostram que a dose de reforço adicional quatro meses após a terceira dose reduziu a número de hospitalizações em 3,5 vezes e aumentou a efetividade contra infecção para 86,1%. Ele alertou, contudo, que a diferença entre pessoas completamente imunizadas e aquelas não vacinadas nos EUA é ampliada quando se inclui na análise a dose de reforço. Esse cenário é ainda mais preocupante globalmente. “No mundo há grande disparidade. Temos de lutar para fechar essa brecha.
Países de renda mais alta têm maior porcentagem de vacinados. Temos de fazer todo o possível para disponibilizar vacinas para os mais pobres e entregar a infraestrutura [necessária] para quem precisa dessas vacinas”, afirmou. Ele acrescentou ainda que é preciso pensar em uma proteção ampla e duradoura, um tipo de vacina pan-coronavírus, que dê conta de possíveis novas variantes.
Questionado se a comunidade científica poderia ter feito mais no enfrentamento à pandemia de covid-19, Fauci lamentou a politização em torno da vacina. “Temos uma divisão na qual a aceitação da vacina tem conotação política. Parece incrível, mas é verdade”, disse. “Basta olhar o percentual de vacinados em Estados em que democratas são maioria e o percentual em Estados de maioria republicana. Nunca deveria acontecer que uma decisão de saúde pública fosse implantada com base em ideologia política.”
O infectologista afirmou que é preciso explicitar os benefícios que a vacina pode trazer. “Não devemos condenar quem não se vacinar, mas tentar explicar por que é importante para elas e suas famílias e também para a segurança de sua própria comunidade”, argumentou. “É preciso todo mundo se unindo contra um inimigo comum, que é o vírus.” O movimento antivax, que ficou mais nítido com a pandemia, é um dos motivos de preocupação de Fauci hoje.
Ele afirmou que o nível de aceitação de vacinas contra outras doenças tem caído e essa é uma tendência que pode crescer. “Me preocupo com o movimento antivax. Focamos em vacinas contra covid, mas há muitas outras vacinas, e temos de ser pró-ativos em explicar para pessoas por que até hoje [as vacinas] têm sido o melhor custo-benefício em saúde.”
Você é jornalista? Participe da nossa Sala de Imprensa.
Cadastre-se e receba em primeira mão: informações e conteúdos exclusivos, pesquisas sobre a saúde no Brasil, a atuação das farmácias e as principais novidades do setor, além de dados e imagens para auxiliar na produção de notícias.
Vamos manter os seus dados só enquanto assim o pretender. Ficarão sempre em segurança e a qualquer momento, pode deixar de receber as nossas mensagens ou editar os seus dados.