Os jovens sofrem mais estresse, e os 50 já não são os anos mais tristes: o que diz novo estudo
11 de dezembro de 2025Durante anos, acreditou-se que a felicidade despencava na meia-idade; mas essa tendência se inverteu.
Por Cristian Phoyu, Em La Nacion
Durante décadas, uma ideia foi repetida em palestras, colunas e livros de autoajuda: a felicidade seguia uma curva em forma de U. A vida começava com entusiasmo, atingia o fundo do poço na metade do caminho — entre os 45 e 50 anos — e então subia suavemente de volta ao longo do tempo. Mas um novo estudo publicado na PLOS ONE sugere que esse modelo pode estar desatualizado. A famosa “curva da felicidade” parece ter sofrido uma distorção.
Hoje, os dados mostram um cenário diferente: os jovens relatam mais estresse, ansiedade e inquietação do que as gerações anteriores, enquanto os adultos mais velhos permanecem estáveis ou até mais satisfeitos. Em outras palavras, a felicidade não atinge mais o pico aos 50 anos. Ela sequer segue uma curva previsível.
A ideia da "curva em forma de U" surgiu de inúmeros estudos realizados desde os anos 2000, baseados em grandes pesquisas internacionais sobre bem-estar subjetivo. O economista britânico David Blanchflower foi um dos primeiros a demonstrar que a satisfação com a vida tende a diminuir após os 30 anos, atinge seu ponto mais baixo entre os 45 e 50 anos e, em seguida, começa a aumentar novamente na velhice.
O padrão parecia claro e universal: em diferentes países, com diferentes metodologias, o mesmo padrão se repetia. Falava-se da "crise da meia-idade" como um fenômeno quase biológico. Dizia-se que o peso das responsabilidades, a criação dos filhos, as dívidas ou a falta de tempo explicavam essa baixa emocional. E que, uma vez passada a tempestade, a serenidade chegaria: menos ambição, mais aceitação, menos estresse. Durante anos, essa curva serviu como uma bússola emocional e até mesmo como fonte de conforto: se você estivesse na casa dos quarenta e se sentisse perdido, as estatísticas prometiam que as coisas melhorariam em breve.
De acordo com um estudo recente de Blanchflower e sua equipe, publicado na PLOS ONE em 2025, o bem-estar subjetivo não segue mais a clássica curva em forma de U que caracterizou décadas de pesquisa. Analisando dados de mais de um milhão de pessoas em mais de 150 países, os autores observaram que o sofrimento psicológico — ansiedade, tristeza, falta de propósito — tende a diminuir de forma constante com a idade, sem o "rebote" da felicidade que era observado anteriormente após os 50 anos. Em outras palavras, os jovens de hoje relatam mais infelicidade do que os adultos mais velhos .
O estudo também mostra que essa tendência se intensificou a partir de 2017: o grupo com menos de 30 anos é o que apresentou o maior declínio no bem-estar, especialmente as mulheres jovens. Os pesquisadores descrevem isso como uma mudança estrutural na experiência emocional contemporânea, possivelmente ligada ao aumento do estresse, à insegurança no trabalho, à solidão, à exposição constante às redes sociais e à incerteza econômica.
Em contraste, as gerações mais velhas parecem experimentar um bem-estar mais estável. Isso não se deve a uma euforia da terceira idade, mas sim a um maior equilíbrio emocional e menor pressão para atender a expectativas externas. O resultado, concluem os autores, é um mundo em que a felicidade não assume mais a forma de uma curva, mas sim de uma linha que sobe gradualmente com a idade.
O que pode estar mudando?
A psicologia do bem-estar apresenta um problema fascinante: ela mede não apenas emoções, mas também percepções. O que cada geração considera "felicidade" muda. Se os jovens de hoje cresceram em um ambiente hiperconectado, competitivo e ansioso, seu padrão de satisfação também se transformou.
— Já não se trata de os cinquentões serem mais felizes, mas sim de os jovens de hoje estarem em pior situação do que antes — explica Blanchflower.
Nesse sentido, a curva não desaparece: ela se distorce. Alguns especialistas também alertam para o viés inerente aos estudos transversais. Comparar pessoas de diferentes idades em um único momento não é o mesmo que acompanhar as mesmas pessoas ao longo de suas vidas. Mesmo assim, a tendência é consistente: o bem-estar dos jovens diminui, enquanto o dos idosos permanece estável ou aumenta ligeiramente.
A mudança não é apenas estatística: é também cultural. A "crise da meia-idade" tornou-se um meme, mas a verdadeira crise parece ter se deslocado para os 20 ou 30 anos. Ansiedade, incerteza e fadiga estão sendo mencionadas cada vez mais cedo.
O que é interessante — e animador — é que os idosos de hoje parecem estar encontrando um tipo de bem-estar mais sólido. Não necessariamente eufórico, mas estável, consciente e ligado a relacionamentos reais. Talvez, como conclui o estudo, a felicidade não siga mais uma curva biológica, mas sim uma social. E essa curva, como tudo hoje em dia, está mudando de forma.
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