Por que trabalho e renda estão em alta e o varejo não acompanha
07 de abril de 2026Juros altos, gastos com bets e até mudança de consumo por causa de canetas emagrecedores explicam dificuldades do setor.
Alberto Serrentino
O varejo brasileiro vem enfrentando longo ciclo de baixo crescimento, que coincide com o período de aceleração digital e mais recentemente do uso de inteligência artificial, desafiando as empresas de varejo em suas agendas estratégicas, em sua disciplina e capacidade de execução.
O biênio 2015-2016 marcou a pior crise na história recente do varejo no Brasil, com quedas reais de 4,3% e 6,2% respectivamente. Veio então um longo período de baixo crescimento (com a pandemia de coronavírus no meio), até o ano de 2024, quando o varejo teve o melhor desempenho dos últimos 12 anos e crescimento real de 4,1%. O ano de 2025 voltou a apresentar baixo crescimento, com taxa real de 1,6%.
A partir de 2021, o varejo passou a crescer abaixo do crescimento do PIB. Nesse período, o mercado de trabalho evoluiu positivamente e não houve impacto proporcional nas vendas do setor varejista. Desde o ciclo pós-Plano Real (1994), o varejo brasileiro responde a 3 fatores: o mercado de trabalho (desemprego, criação de emprego, massa salarial e renda), o mercado de crédito (custo e acesso) e a confiança (que motiva compras por impulso e compras a crédito).
TRABALHO E RENDA
A taxa de desemprego no Brasil caiu de 14,9% em janeiro de 2021 para 5,8% em fevereiro de 2026. Nesse mesmo período, o país criou um saldo líquido positivo de 9,2 milhões de empregos formais, o rendimento médio real aumentou 10% e a massa de rendimento real 25%.
A confiança dos consumidores vêm oscilando e tem estado em patamares que não caracterizam otimismo, mas tampouco pessimismo. Vale destacar também o peso dos programas de distribuição de renda, que tiveram expressivo aumento no período. Em 2019, o gasto anual com o Bolsa Família foi de R$ 33,7 bilhões, com alcance de 19,5% dos domicílios brasileiros. Teve então sucessivos aumentos e em 2025 distribuiu R$ 159,5 bilhões, chegando a 28,5% dos domicílios.
O varejo não esteve em crise desde o biênio 2015-2016, mas não consegue voltar a taxas de crescimento que permitam um ciclo de investimentos sustentáveis e melhoras no retorno do capital empregado nas empresas e no valor de mercado das listadas. Há 3 fatores que podem explicar a discrepância entre o vigor do mercado de trabalho e o desempenho modesto do varejo nos últimos anos:
A confiança dos consumidores vêm oscilando e tem estado em patamares que não caracterizam otimismo, mas tampouco pessimismo. Vale destacar também o peso dos programas de distribuição de renda, que tiveram expressivo aumento no período. Em 2019, o gasto anual com o Bolsa Família foi de R$ 33,7 bilhões, com alcance de 19,5% dos domicílios brasileiros. Teve então sucessivos aumentos e em 2025 distribuiu R$ 159,5 bilhões, chegando a 28,5% dos domicílios.
O varejo não esteve em crise desde o biênio 2015-2016, mas não consegue voltar a taxas de crescimento que permitam um ciclo de investimentos sustentáveis e melhoras no retorno do capital empregado nas empresas e no valor de mercado das listadas. Há 3 fatores que podem explicar a discrepância entre o vigor do mercado de trabalho e o desempenho modesto do varejo nos últimos anos:
juros – o 1º e mais relevante favor está relacionado à taxa de juros real, que a partir de 2021 começou a afetar o varejo com impacto na demanda, no custo das empresas para financiar clientes via crédito e na pressão sobre resultados, caixa e estrangulamento de diversas empresas que estavam com estrutura de capital alavancada depois da pandemia e do ciclo de juros baixos. Os juros elevados fizeram o endividamento das famílias passar de 47,5% da renda em janeiro de 2021 para 49,7% em janeiro de 2026; de outro lado, o comprometimento da renda passou de 22,2% para 29,3% no mesmo período.
bets – o 2º fator que explica a crise enfrentada pelo varejo é a expansão do mercado de apostas digitais (as chamadas bets), que segundo dados da NielsenIQ já alcançam penetração de 26,2% dos lares.
A receita bruta de apostas oficiais (GGR) foi de R$ 37 bilhões em 2025. Isso representa cerca de 15% do volume total apostado de R$ 250 bilhões, dado que as empresas revertem 85% dele em ganhos para os apostadores. Na perspectiva do varejo, o desafio é quantificar quanto dos volumes apostados e revertidos em ganhos volta como renda disponível para consumo e quanto é novamente apostado, estimulado por mecanismos de “gamificação” similares aos das plataformas de marketplaces e de conteúdo digital.
O número do GGR equivale a 1,5% do varejo brasileiro, mas o volume total apostado pode chegar a 10% do setor varejista. Não há fontes de dados e pesquisas que consigam quantificar quanto da renda está sendo efetivamente destinada a apostas e seu real impacto para o varejo, mas provavelmente é relevante.
GLP-1 – o rápido crescimento de tratamentos emagrecedores baseados no GLP-1 (as chamadas canetas emagrecedoras) traz diversos impactos para o varejo. Pesquisas para tentar medir a penetração nos domicílios revelam dados muito distintos, com taxas que variam de 5% a 25% das famílias com alguém fazendo uso deste tipo de produto. As farmácias vêm se beneficiando da demanda e capturando receitas incrementais, os segmentos de varejo alimentar e food service começam a perceber mudanças de comportamento e hábitos alimentares.
Do ponto de vista do varejo como um todo, é importante dimensionar penetração e gasto médio mensal, por se tratar de despesa recorrente de ciclo longo, que subtrai renda que seria destinada a outras categorias de consumo, fenômeno similar ao impacto que a expansão da telefonia móvel pós-privatizações teve para o varejo brasileiro.
As empresas de varejo brasileiras vêm respondendo ao cenário com medidas de austeridade financeira, foco em desalavancagem e, de outro lado, buscando dedicar esforços nos processos de inovação, transformação e disseminação de IA.
O cenário vem se mostrando desafiador, com grande parte do resultado e caixa operacionais criados sendo destinados a pagamento de despesas financeiras, sacrificando a capacidade de investimento. Ou seja, as empresas estão buscando ganhos de eficiência, melhora de resultados e aumento de liquidez, mas isso vem sendo destinado de maneira desequilibrada para pagar os investimentos do passado e não para acelerar os do futuro.
As melhoras no mercado de trabalho –que já mostra sinais de desaceleração– não serão suficientes para que o varejo brasileiro volte a ter crescimento saudável e sustentável de maneira estrutural, apesar da resiliência e capacidade de adaptação das empresas. Será preciso que os juros voltem a patamares compatíveis com as taxas de retorno de capital dos negócios e com a capacidade de endividamento das famílias. E que políticas de educação, juntamente com marcos regulatórios, possam controlar o crescimento de despesas que minam a capacidade de poupança e consumo das famílias.
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