Abrafarma Logo
Área
Restrita
Abrafarma Logo

Reformas ajudam avanço do PIB em 2026, diz Banco Mundial

21 de outubro de 2025
Fonte: Jornal Valor Econômico – SP

Nova diretora para o Brasil destaca não ter visto juros tão altos como no país recentemente.

 

O crescimento de 2,2% da economia brasileira em 2026 projetado pelo Banco Mundial deve ser impulsionado por três fatores: consumo, impactado por sua vez pelo baixo desemprego; investimento de Estados em infraestrutura; efeitos de reformas estruturais realizadas nos últimos anos, como Previdência e trabalhista. Em prazos mais longos, a reforma tributária sobre consumo também trará uma série de benefícios para o país, ao tornar o desenvolvimento regional “mais uniforme” e o crescimento mais inclusivo. A avaliação é da nova diretora para o Brasil do Banco Mundial, Cécile Fruman, número 1 da instituição no país, em sua primeira entrevista no cargo. Ela afirma, no entanto, que a trajetória da dívida pública e os juros altos, impulsionados pelo crédito direcionado, são problemas para o Brasil, assim como a economia fechada para o comércio e os gargalos de produtividade e infraestrutura.

 

“[A taxa de juros] foi uma das minhas maiores surpresas por aqui. Eu não tinha visto recentemente taxas de juros tão altas”, disse ao Valor.

 

De nacionalidade francesa, Cécile entrou no Banco Mundial em 1998, tendo passado por cargos como o de diretora de Integração Regional e Engajamento para o Sul da Ásia. Ela também tem passagens acadêmicas pela ESCP Business School, na França, e pela Universidade de Osaka, no Japão.

 

Confira abaixo os principais trechos da entrevista, na qual a diretora aborda temas como reforma do Imposto de Renda, tarifa de 50% dos Estados Unidos contra o Brasil, inteligência artificial, Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025 (COP30) e a importância de Estados e municípios na execução de políticas públicas:

 

Desempenho da economia

O Brasil está indo muito bem nos últimos anos, principalmente por causa da agricultura, mas também por causa de algumas das principais reformas estruturais [realizadas ou em andamento]: previdenciária, trabalhista e, mais recentemente, a tributária. Isso está se pagando. Nossas projeções são de crescimento de 2,4% para este ano e 2,2% para o ano que vem, com crescimento contínuo e robusto por causa de três fatores, essencialmente. Um é que o desemprego está muito baixo agora, o que significa que continuará a ter um bom consumo [das famílias]. Os Estados também continuarão a investir, em particular na infraestrutura, porque eles têm espaço fiscal. Também esperamos que algumas dessas reformas estruturais continuarão a se pagar. Alguns dos efeitos positivos demoram para se concretizar.

 

Importância de mais reformas

Este é um país que, provavelmente, se continuar no caminho das reformas estruturais, poderá ver um crescimento ainda maior. Os serviços são o setor que emprega 80% dos trabalhadores de baixa renda. Portanto, ganhos de produtividade na indústria e nos serviços não só melhorariam a competitividade e o crescimento, mas também teriam um impacto muito benéfico nos salários e para tirar as pessoas da pobreza - o que o Brasil tem feito muito bem. O investimento ainda é necessário na infraestrutura e na logística em particular. [Também é necessária] a abertura para o comércio exterior. O Brasil é um país que, embora exporte certos produtos em grandes volumes, ainda tem muito espaço para se integrar às cadeias globais de valor. Um ambiente mais aberto e melhor para os negócios, com mais investimentos contínuos e habilidades [desenvolvidas], sempre é parte da agenda. E quando falamos de crescimento e empregos, estamos falando de crescimento e empregos inclusivos. Isso significa empregos para mulheres, mas também empregos para outras minorias.

 

Situação fiscal

A dívida pública hoje está em [quase] 80% do PIB. É certamente uma das maiores no grupo de comparação com Brasil. Isso se traduz em 8% do PIB em pagamento de juros [no acumulado de 12 meses]. Certamente não é uma trajetória sustentável. Muita coisa já foi feita, e nós saudamos os esforços do governo para tentar estabilizar a situação fiscal. Mas é preciso fazer mais. Os maiores ganhos estão nas transferências previdenciárias e sociais, embora sejam talvez alguns dos mais difíceis. Fazer uma reforma previdenciária é difícil em qualquer país no mundo. Identificamos algumas áreas que provavelmente deveriam ser priorizadas. A primeira é a indexação [de benefícios], o que resulta em custos recorrentemente altos. Também tem a idade mínima de 65 anos [de aposentadoria], que foi adotada, mas não implantada uniformemente.

 

Dividendos duplos

Nós identificamos um número de medidas que chamamos de “dividendos duplos”, com as quais é possível obter benefícios fiscais e ambientais. Uma é continuar a precificação de emissões de gases de efeito estufa e ter mercados de carbono eficientes, o que o Brasil está fazendo bem e pode continuar a fazer. Há também a taxação apropriada de combustíveis fósseis e transferências intergovernamentais relacionadas a resultados ecológicos.

 

COP30

É uma plataforma importante para avançar na questão climática. Neste ano, um dos focos [da COP] será a resiliência [às mudanças climáticas], o que permanece uma preocupação crescente, infelizmente. Serão discutidas soluções baseadas na natureza, e não há lugar melhor no mundo do que a Amazônia para realmente falar sobre como valorizarmos os recursos naturais. E muitos dos nossos [Banco Mundial] anúncios para o Amazonas realmente mostram que essa não é apenas uma região que drena carbono, mas também uma oportunidade econômica incrível. Um terceiro tópico serão as finanças climáticas, que permanecem como um dos tópicos principais da COP, porque nunca há o suficiente.

 

A direção geral de tentar garantir que os mais ricos paguem mais impostos é provavelmente a melhor”

 

Tarifa de 50% dos EUA

O Brasil, de certa forma, está em uma situação privilegiada. Embora 50% de tarifa seja algo muito assustador, nossa análise mostra que o impacto será comedido. Um motivo é que só 12% das exportações do Brasil vão para os Estados Unidos. Isso não esconde a realidade que, para alguns agricultores do Nordeste que tinham mercado nos Estados Unidos, [o tarifaço] poderá ser extremamente danoso. Mas para todo o setor agrícola o impacto não é tão grande. Outros países não estão em posição tão boa, porque sua exposição aos Estados Unidos é muito maior e mais ampla.

 

Juros no Brasil

Foi uma das minhas maiores surpresas por aqui. Eu não tinha visto recentemente taxas de juros tão altas. Nós sabemos que, para o investimento privado e o crescimento do setor privado, os juros elevados são muito danosos. Ainda há bastante crédito direcionado para setores específicos ou para tipos específicos de empresas. Pode existir uma boa razão [para esse crédito direcionado], mas isso também se traduz em juros mais altos [para os demais setores].

 

Reforma do Imposto de Renda

A proposta de uma cobrança mínima de 10% [para pessoas físicas que ganham mais de R$ 50 mil mensais] é definitivamente um passo na direção certa. As pessoas muito pobres atualmente não são taxadas [por meio do Imposto de Renda]. Ao aumentar isso para R$ 5 mil, mais pessoas terão o benefício, o que é uma coisa boa. Existem outras formas de abordar essa reforma, mas a direção geral de tentar garantir que os mais ricos paguem mais impostos é provavelmente a melhor.

 

Políticas públicas de Estados e municípios

Há algumas reformas que afetarão o todo o país de natureza federal: tributária, previdenciária, abertura comercial. Mas também existem muito também que os Estados e os municípios podem fazer, em termos de ter um mercado de trabalho com programas que facilitem a combinação entre jovens e os empregadores, e continuar a investir em educação e [desenvolvimento de] habilidades, para ajudarem as pessoas a se adaptarem um mercado de trabalho constantemente em evolução.

 

Inteligência artificial

Estamos fazendo vários estudos globais, mas também para países. Queremos entender o que a inteligência artificial traz em termos de oportunidades e como as empresas poderão se tornar mais inovadoras e competitivas, mas também olhando os riscos para o mercado de trabalho. Será que isso vai resultar em perda de certos empregos? Criar novos tipos de empregos? Como podemos apoiar os países para que, por meio da educação e do desenvolvimento de habilidades, eles ajudem as pessoas a conseguirem esses novos empregos? Mas também estamos olhando como a inteligência artificial poderá trazer melhores soluções em saúde e educação. Portanto, [a inteligência artificial] é uma oportunidade e também uma ameaça. Um país como o Brasil é muito sofisticado. Vocês não precisam de nós para adotar, estudar ou analisar como a inteligência artificial impactará a sua economia, mas trabalhamos com países com uma capacidade [produtiva] muito baixa, de baixa renda, para os quais isso pode ser um desafio muito assustador.

 

Inovação no Brasil

Os elementos principais são os ecossistemas para [transformar] startups em unicórnios.

 

Há um ecossistema que facilita o seu trabalho? Elas têm instrumentos financeiros? Têm as habilidades [necessárias] e podem encontrar essas habilidades? Estão conectados a mercados globais? Nós falamos muito sobre os benefícios do Investimento Direto no País [IDP, espécie de investimentos de longo prazo de empresas de um país em outro]. Sempre pensamos no IDP porque ele traz dinheiro, mas faz mais do que isso: traz novas formas de fazer negócios, tecnologias, habilidades etc. Se você pensar no Brasil, o IDP não é tão alto para um país como este. Isso também pode ser um veículo para maior inovação.

 

Reforma tributária

A reforma do Imposto sobre Valor Agregado [IVA] é muito importante. Ela vai ajudar a tornar o desenvolvimento regional mais uniforme. Ao impor um IVA para todos Estados, você reduz a prática atual em que os Estados dão incentivos e acaba com um pouco de uma corrida para baixo [na arrecadação]. Isso vai funcionar também para transferências governamentais, que serão mais igualitárias. Quando pensamos sobre inclusão, é a inclusão das pessoas, mas também a redução das disparidades regionais. Isso vai criar mais crescimento para o país e para Estados que precisam de mais recursos e de crescimento mais acelerado, nas regiões Norte e o Nordeste em particular.

 

Programas brasileiros que são referência

Há muita coisa que o Brasil pode apresentar para o resto do mundo: o Bolsa Família, o que vocês estão fazendo na Amazônia, a educação no Ceará, o mercados de carbono. É uma lista longa, uma série de áreas em que o Brasil está à frente da curva e vem inovando. Muitos países estão interessados nisso.

 

Você é jornalista? Participe da nossa Sala de Imprensa.

Cadastre-se e receba em primeira mão: informações e conteúdos exclusivos, pesquisas sobre a saúde no Brasil, a atuação das farmácias e as principais novidades do setor, além de dados e imagens para auxiliar na produção de notícias.

Vamos manter os seus dados só enquanto assim o pretender. Ficarão sempre em segurança e a qualquer momento, pode deixar de receber as nossas mensagens ou editar os seus dados.