Uma vacina que protege o cérebro
26 de novembro de 2025Estudo traz mais evidências de que imunizante contra herpes-zoster afasta o risco de demência.
AKILAH JOHNSON
COLABOROU LAYLA SHASTA
Varicela-zoster
Apesar dos estudos promissores, ainda não está claro exatamente como o vírus influencia o desenvolvimento da demência.
Um dos maiores estudos já realizados sobre a relação entre a vacina contra herpes-zoster e a saúde cerebral oferece pistas sobre como a doença aumenta o risco de demência. Pessoas que tiveram múltiplos episódios de herpes-zoster tiveram um risco maior de demência por vários anos após o segundo surto, constatou o estudo, em comparação com quem teve apenas um episódio. As conclusões, publicadas recentemente na revista Nature Medicine, fornecem mais evidências de por que tomar a vacina contra herpes-zoster pode ajudar a proteger o cérebro.
A doença, também conhecida no Brasil como cobreiro, se origina do vírus varicela-zoster, que causa a catapora na infância e fica adormecido no sistema nervoso. Conforme as pessoas envelhecem, o vírus pode se reativar, mas muitas vezes é “contido novamente pelo sistema imunológico”, explica Pascal Geldsetzer, professor de Medicina na Universidade Stanford e um dos autores do estudo. Mas, às vezes, disse, “ele se reativa completamente” – e então surgem os sintomas característicos do herpeszoster: bolhas dolorosas, sensação de queimação, formigamento e erupções.
Ambas as versões da vacina – uma contendo o vírus vivo atenuado e outra sem vírus vivo – reduzem essas reativações e o risco de demência, segundo o estudo. Os pesquisadores analisaram prontuários eletrônicos de mais de 100 milhões de pessoas nos Estados Unidos, de 2007 a 2023. Após controlar 400 variáveis diferentes – incluindo doenças crônicas, dados demográficos, prescrições e consultas médicas – constataram redução de 27% a 33% no risco de desenvolver demência nos três anos seguintes à vacinação.
Aqueles que tiveram múltiplos episódios de herpes-zoster apresentaram um risco
de 7% a 9% maior de demência entre três e nove anos após o segundo surto, comparado com quem só teve um episódio.
RISCO DE DEMÊNCIA.
A demência é influenciada por diversos fatores complexos, incluindo genética, ambiente e infecções virais. E embora o número de americanos que desenvolvem a doença a cada ano esteja aumentando, há poucos tratamentos eficazes e nenhuma forma comprovada de prevenção além de mudanças no estilo de vida. Apesar dos estudos promissores, ainda não está claro exatamente como o vírus varicela-zoster influencia o desenvolvimento da demência.
Existem teorias. Uma delas é que o vírus varicela-zoster, que está se “reativando continuamente” mesmo quando não causa sintomas aparentes, afeta diretamente partes do cérebro envolvidas na demência.
Outra teoria envolve a resposta natural do sistema imunológico às infecções – inflamação – e se há um efeito tóxico sobre o cérebro quando o vírus se reativa. “Então, não é necessariamente que o vírus em si esteja atacando diretamente as células do cérebro, mas sim que a resposta inflamatória à presença desse vírus é o que causa problemas”, diz Anupam Jena, clínico do Massachusetts General Hospital.
Ou seriam os medicamentos usados para tratar os sintomas dolorosos e debilitantes? “Não sabemos”, comenta Jena.
As conclusões do estudo sugerem, porém, que pessoas que receberam múltiplas doses da vacina contra herpeszoster ficaram mais protegidas contra demência, reforçando pesquisas anteriores que mostram que tomar duas doses, e não apenas uma, da vacina Shingrix reduz reativações do vírus varicela-zoster.
Entender melhor se o vírus contribui para a neurodegeneração é um passo para encontrar melhores formas de tratara demência , diz Patrick Schwab, autor principal do estudo e diretor sênior de aprendizado de máquina e inteligência artificial na GSK, biofarmacêutica que produz uma das vacinas contra herpes-zoster.
O estudo descobriu que pessoas que receberam duas doses da Shingrix – vacina mais recente contendo partes inativas do vírus, produzida pela GSK – tiveram risco 18% menor de demência cinco anos após a vacinação, em comparação com as que receberam uma única dose da Zostavax, vacina mais antiga feita com vírus vivo enfraquecido. A Zostavax foi retirada do mercado dos EUA em 2020. No Brasil, isso ocorreu em 2023.
O estudo também constatou que mulheres acima de 50 anos que receberam a Zostavax tiveram um risco 35% menor de demência três anos após a aplicação. Mulheres entre 80 e 89 anos que receberam duas doses da Shingrix apresentaram um risco 39% menor três anos após a vacinação.
“Os resultados foram realmente notáveis em sua consistência”, observa Schwab, que também lidera o grupo de IA biomédica na GSK. Contudo, Schwab destaca um “ponto complicado” do estudo: ele só conseguiu medir casos de varicela-zoster registrados clinicamente como diagnóstico de herpes-zoster, o que se torna “um substituto para reativação de modo geral”.
As vacinas contra herpes-zoster já são recomendadas para adultos mais velhos (geralmente acima de 50 anos) e pessoas com sistema imunológico enfraquecido. Alguns médicos dizem que agora há evidências suficientes para discutir a prevenção da demência como um benefício adicional. Jena, professor de políticas de saúde na Harvard Medical School, diz que mencionou recentemente essa pesquisa durante uma aula para residentes de Medicina – e eles nem sabiam dessa relação.
Jena revisou como avaliador um estudo anterior coescrito por Geldsetzer, que acompanhou mais de 280 mil adultos no País de Gales e descobriu que vacinados contra herpeszoster tinham um risco 20% menor de desenvolver demência ao longo de sete anos.
Ele afirma que o novo estudo reforça a robustez das conclusões e fornece “evidências de qualidade bastante boa”. Por exemplo, ao testar a eficácia das vacinas na prevenção da demência, os cientistas observaram que os benefícios cerebrais não eram permanentes e acompanhavam a diminuição da proteção conferida pelas vacinas ao longo do tempo.
Estudo aponta Pessoas que receberam 2 doses da Shingrix tiveram risco 18% menor de demência 5 anos após a vacinação. AM Barrett, chefe e professora de neurologia na UMass Chan Medical School, diz que as opções atuais para reduzir o risco de demência são limitadas e não muito eficazes.
Barrett, neurologista e chefe dos serviços de neurologia do VA Central Western Massachusetts Healthcare System, teme que o assunto possa se tornar politizado em meio à crescente desconfiança na Medicina e ao aumento da hesitação vacinal. “Infelizmente, se as pessoas não forem afetadas pessoalmente pela demência… elas podem ver isso como uma tentativa de convencê-las a tomar vacinas desnecessárias”, ela declara.
Mas ela afirmou que a vacinação é uma intervenção relativamente barata e amplamente disponível. “Você quer ter mais cinco anos brincando com seus netos e mais cinco anos dirigindo muito bem”, ela cita. “Isso não tem preço.”
EM SÃO PAULO.
Dados da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo divulgados em 2024 indicaram um aumento de 50,4% nos atendimentos ambulatoriais de pacientes com herpes-zoster entre 2022 e 2023. Enquanto 2022 contabilizou 4.400 atendimentos, em 2023 o número saltou para 6.700. A tendência de crescimento ocorre desde 2019.
Na ocasião, a pediatra Isabella Ballalai, diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), disse que a entidade vinha observando esse movimento havia um tempo. Ela considera que o aumento de casos de zoster pode estar relacionado a dois fatores: exposição ao coronavírus, causador da covid-19 – que tende a gerar uma baixa da imunidade – e o fato de as pessoas estarem mais atentas à doença, resultando em maior busca por serviços de saúde.
O varicela-zoster está presente no organismo da maior parte das pessoas – entre todos aqueles que já desenvolveram catapora. “Estudos mostram que mais de 90% da população já teve contato com o vírus e, então, carrega ele no corpo”, explica o infectologista Rodrigo Lins, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia. Ele alerta que, apesar de idosos apresentarem maior risco de enfrentar a reativação desse micro-organismo, pessoas mais jovens não estão livres de desenvolver a doença. Afinal, elas também podem experimentar momentos de baixa na imunidade. Estima-se que um em cada três adultos poderá sofrer com o herpeszoster em algum momento da vida, segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos.
Foi o caso do repórter da TV Globo Tiago Scheuer que, no início do ano passado, usou as redes sociais para desabafar sobre sua experiência com a doença. “Confesso para vocês que senti muita dor”, disse o jornalista em vídeo publicado nas mídias digitais. “Começou com uma manchinha vermelha na minha barriga, e essa manchinha foi crescendo dia após dia. Depois, ocupou parte da lateral do corpo e das costas. Não entendendo nada, três dias depois eu procurei uma dermatologista”, contou.
Os sinais descritos por Scheuer fazem parte do quadro típico da doença, caracterizado por manchas e bolhas na pele, que provocam dor e queimação. Mas há alguns sintomas que podem anteceder o surgimento das lesões. Segundo o Ministério da Saúde, são: dores nos nervos; formigamento, ardor e coceira locais; febre; dor de cabeça; mal-estar.
Um ou dois dias após esses primeiros sinais, a pele fica avermelhada e surgem bolhas com líquido dentro, chamadas de vesículas. As regiões do corpo mais atingidas pela doença são o tórax, o pescoço e as costas. Os sintomas tendem a sumir com o passar do dias, mas a doença pode deixar sequelas. A principal, a neuralgia pósherpética, costuma causar dores que persistem três meses após o fim dos sintomas, ou até por anos. Segundo Lins, há pessoas que podem passar a vida inteira com dor.
No Brasil, a vacina Shingrix só está disponível em clínicas e laboratórios privados – ou seja, não é oferecido gratuitamente pelo SUS. Ela chegou ao País em junho de 2022, segundo a SBIm, e está indicada para pessoas com imunocomprometimento a partir de 18 anos de idade e adultos com 50 anos ou mais.
“Não é necessariamente que o vírus em si esteja atacando diretamente as células do cérebro, mas sim que a resposta inflamatória à presença desse vírus é o que causa problemas”. Anupam Jena - Clínico do Massachusetts General Hospital.
“Infelizmente, se as pessoas não forem afetadas pessoalmente pela demência… elas podem ver isso (recomendação) como uma tentativa de convencê-las a tomar vacinas desnecessárias. (...) Você quer ter mais cinco anos brincando com seus netos e mais cinco anos dirigindo muito bem. Isso não tem preço”. AM Barrett - Chefe e professora de neurologia na UMass Chan Medical School.
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